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A desmedicalização na infância: Mais escuta, menos Ritalina

A desmedicalização na infância: Mais escuta, menos Ritalina

As crianças são altivas, desdenhosas, iradas, invejosas, curiosas, interessadas, preguiçosas, volúveis, tímidas, intemperantes, mentirosas, dissimuladas; riem e choram facilmente; têm alegrias imoderadas e aflições amargas sobre assuntos mínimos; já são homens.

O que a citação acima, do pensador francês Jean de La Bruyère, tem a ver com o ideal de infância que estamos propagando enquanto sociedade? Por que estamos constantemente em busca dessa criança ideal, obediente, concentrada e disciplinada? Estamos verdadeiramente educando para formar sujeitos plenos e conscientes de suas individualidades? De onde vêm as chamadas “doenças pós-modernas”, como hiperatividade, ansiedade, transtorno obsessivo compulsivo, dislexia e por que o número de crianças com esses diagnósticos é cada vez maior? São muitas as interrogações.

“Desmedicalização”: O que isso quer dizer? Por trás do nome que parece complicado, a proposta é refletir até que ponto a educação que oferecemos às crianças  frequentemente pautada no desempenho e no excesso de informações  impactou o surgimento de transtornos que até há pouco tempo atrás não existiam. “Há um silencioso genocídio à infância que precisa ser combatido“.

Aquilo que é visto como indisciplina, desobediência ou dificuldade de concentração, é na verdade fruto da falta de diálogo da instituição escolar com aquilo que tem mais significado para formação da subjetividade destas crianças, seus interesses e desejos mais profundos.

Para repercutir essa reflexão tão ampla e que abre espaço para tantos questionamentos, tabus e contradições da sociedade de consumo.

A discussão é ampla e as particularidades são muitas. Não se trata de negar o uso de medicações quando elas são necessárias, e sim de propor uma reflexão maior: Quando elas são necessárias? E por quê? Para cada criança, o ideal é que exista um observador atento, seja um médico, pedagogo ou a família para perceber suas reais necessidades e eventuais limitações.

O processo de urbanização contribuiu para uma cultura de confinamento do qual as crianças são vítimas. Assim, os momentos ao ar livre são cada vez mais raros, falta aos profissionais de saúde conhecimento sobre pedagogia e uma disposição sensível de perceber as reais necessidades da criança. Por outro lado, os educadores e professores também não têm conhecimento suficiente para combater os diagnósticos recebidos.

Por que é preciso desmedicalizar a infância?

Para responder à sua pergunta é necessário se perguntar por que é necessário medicalizar a infância, não é mesmo? É preciso olhar para história para compreender como se deu este processo de medicalização da infância. Esta forma de educar crianças dentro de instituições, sentadas em carteiras e fileiras, separadas por idades, espaços, disciplinas e notas é uma forma extremamente rígida e datada, que tem início com a Revolução Industrial, quando o Estado passa a retirar as pessoas de suas comunidades para que trabalhem nas fábricas enquanto seus filhos passam a ir para às escolas para aprender a língua do país colonizador. Ainda hoje em vários países destes continentes, crianças que falam seus idiomas nativos são reprovadas para que aprendam um idioma estrangeiro.

Enquanto profissionais da educação muitas vezes não demonstram conhecimento suficiente para combater o diagnóstico médico, profissionais da saúde demonstram pouco conhecimento sobre pedagogia e consequentemente sobre as próprias crianças diagnosticadas, ignoram a realidade escolar e não a questionam. A escola industrial é naturalizada e as crianças que não se adaptam a ela são tratadas como doentes. Este processo de escolarização é inerente a um processo de colonização, e agora, no limite, proponente a este processo de medicalização da infância e da vida.

Antes as crianças que reagiam apanhavam, eram punidas com a palmatória, com puxão de orelha, tapinha, ou até ajoelhando no milho.

Agora, os “desobedientes”, “desatentos” ou “desconcentrados”, aqueles que insistem em resistir e rejeitar esta escola como a forma natural de aprender e viver o mundo, são envenenados com o cloridrato de metifenidato, substância presente em medicamentos como Concerta e Ritalina.

Olhando para nossos índices de desigualdade social, taxa de homicídios, de analfabetismo, de evasão escolar, de reincidência criminal, degradação ambiental, parece óbvio que as crianças rejeitem um sistema que as educa para isto. O discurso da obediência, da disciplina, da concentração é enfiado literalmente goela abaixo das crianças. Acompanho casos colaterais graves, crianças com depressão, perda da criatividade, problemas de saúde e até tentativa de suicídio.

É preciso desmedicalizar a infância para que as crianças não deixem de sentir o que sentem, para que elas cresçam em contato consigo mesmas, para que possam se autoconhecer. Aprendemos o mundo através dos sentidos, impedir as crianças de sentir o que sentem é extremamente danoso para seu aprendizado e para constituição de sua subjetividade.

É preciso que a sociedade se questione sobre o que faz com que crianças precisem consumir uma droga para que aceitem a educação que lhes é ofertada nas escolas públicas e privadas. No século XXI, escutar os estudantes, permitir que estudem aquilo que lhes interessa, ainda é algo extremamente inovador na grande maioria das escolas, mas não em todas. Cresce o número de escolas públicas e privadas que já atuam de forma diferente ou que enxergam a necessidade de serem repensadas.

As escolas precisam aprofundar seu discurso pedagógico, precisam aprender com outras experiências que há muitos anos já existem aqui no Brasil e no exterior e que apresentam maneiras muito mais saudáveis de se educar, tornando a escola um centro de convivência comunitário de fato, um polo de fomento a cultura local, um espaço realmente vivo.

Espaços de escuta e de voz são espaços de saúde, espaços de desconstrução de ordens opressoras transgeracionais que se dissolvem quando há oportunidade de diálogo verdadeiro, de reconhecimento do outro e de si mesmo.

A educação precisa estar centrada nas relações pessoais, não no professor, nem na criança, mas nas relações, criança- criança, criança- adulto, adulto- criança, adulto- adulto.

É preciso compreender o ser de forma integral, com seus aspectos fisiológicos, emocionais e sociais, não podemos ignorar nenhuma destas dimensões muito menos o fato de que elas são completamente indissociáveis. A mente, o cérebro e a cultura estão o tempo todo dialogando, exercendo e sofrendo influência um sobre o outro, a todo momento, como vias de mão dupla. O ser não pode ser concebido por uma única perspectiva.

É preciso aprofundar o discurso pedagógico para perceber que as crianças não têm dificuldade de prestar atenção, simplesmente elas não estão interessadas naquilo, estão prestando atenção em outra coisa, em algo que é mais importante para elas naquele exato momento, assim também é com os adultos.

Crianças não são hiperativas, são crianças, estão vivas e possuem energia vital, precisam que respeitem seu tempo e seu espaço, precisam ser escutadas. 

A medicina e a escola convencional são irmãs gêmeas, ambas nascem de uma concepção de mundo e de ciência que é cartesiana, que segmenta o conhecimento e o ser. Assim como a escola, ao separar a biologia da química, está separando os seres vivos de seus elementos constituintes, ao separar a história da geografia está separando o tempo do espaço, a medicina ocidental enxerga o ser de forma segmentada. O adulto transmite à criança tudo aquilo que ele é, não basta falar uma coisa e não agir com coerência, a criança capta, apreende. Estas crianças respondem ao mundo em que estão sendo inseridas, resistem pois não se adaptam, naturalmente, já que é um sistema que não respeita a natureza da criança.

O próprio contato com a natureza tem sido algo cada vez mais raro. O processo de colonização é inerente a um processo de urbanização, que vem criando uma cultura de confinamento, fortalecendo relações de vigilância e punição contínua.

Crianças precisam de tempo e espaço. Adultos têm cada vez menos tempo e espaço. Isso significa que somos todos vítimas de um mesmo sistema pautado na geração de capital. Como resolver esse impasse na educação das crianças?

A gestão do tempo e do espaço é um desafio para todos nós ao longo de toda nossa vida. A maneira como cada um pretende se inserir no mundo, a contribuição que pretende oferecer, o papel social que desempenha, são questões que fazem parte deste fundamental exercício de consciência e de autoconhecimento para que possamos decidir a cada instante ao que nos dedicar. Assim, todos somos ao mesmo tempo vítimas e sujeitos do sistema, a cada ato estamos hora resistindo, transformando, hora contribuindo para que ele se fortaleça.

 

📍Luciane Santos 

Pedagoga e Terapeuta

 

 

Saber Sistêmico - Comunidade da Constelação Familiar Sistêmica
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Olá!! Sou Luciane Santos Pedagoga e Terapeuta . Apaixonada pelo Aprendizado e Desenvolvimento Humano. Acredito que estamos nessa vida para sermos cada dia melhores, realizados e felizes com nossas escolhas. Seja Bem Vindo!!

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