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A gente merece o que é capaz de aceitar

A gente merece o que é capaz de aceitar

A verdade delicada é que ser “bom suficiente” não basta para termos apenas coisas boas da vida.

Há algum tempo que ouvir frases com a palavra merecer tem me causado certa antipatia e muitas reflexões. Toda vez que dizem: “Você merece ser feliz.” “Você merece algo melhor.” “Você não merecia aquilo.” “Aquela pessoa teve o que mereceu” (em casos cuja máxima “olho por olho” vence). Eu fico me perguntando, do que exatamente essas pessoas estão falando? A minha impressão é que por trás desse conceito está a ideia de que ser “bom suficiente” basta para que algumas coisas aconteçam na nossa vida, mas coisas ruins, não.

E ser bom suficiente pode abarcar uma série de obrigações e deveres: 

  • Ser bom filho: o que muitas vezes significa ser leal à família de origem, ainda que não seja o caminho que nosso coração anseia.

  • Trabalhar: muito e duro, porque gente de bem levanta cedo e trabalha até cansar, muitas vezes, até esgotar. 

  • Casar e ter filhos.

  • Fazer exercícios pelo menos 3 vezes por semana.

  • Comer frutas, legumes e verduras e beber pelo menos 2 litros de água por dia.

  • Ser educado, honesto, humilde...

  • Rezar, meditar, fazer terapia e ter uma religião ou simplesmente fazer o bem aos outros… e por aí vai.

A crença é de que se a gente gabaritar essa “prova” seremos pessoas merecedoras. Mas, como então, podemos explicar pessoas que cuidam muito bem da sua saúde e morrem de males fulminantes  ou doenças de difícil trato? Pessoas narcisistas, com dinheiro pra gozar a vida mais do que muita gente que faz caridade? 

A verdade delicada é que ser “bom suficiente” não basta para termos apenas coisas boas da vida. O merecimento entendido assim, é uma fantasia que parece se realizar de maneira simplista e totalmente desconectada da parte da vida que temos pouco ou nenhum controle. Uma dessas partes  pode ser tratada: nossa história social e familiar, pois são as narrativas que formam nossas crenças e as sagas que inconscientemente seguimos. Sobra pouco para o livre arbítrio se nenhuma dessas histórias vieram à luz. Mas há também uma parte da vida, que é o próprio funcionamento dela e do Universo, que não temos, pelo menos ainda, controle algum, e sabemos pouco.

Por isso, penso que merecer tem mais a ver com a permissão que nos damos para aceitar o que a vida nos oferece do que com cumprir exigências e sagas sociais e familiares. Que tenha mais a ver com a gratidão que temos pela nossa história e do aprendemos e transformamos à partir dela. Existem pessoas calmas e alegres passando por muitas dificuldades. Não estou dizendo que merecem as dificuldades que têm, mas certamente merecem os frutos que plantaram através da calma e alegria.



 

Saber Sistêmico - Comunidade da Constelação Familiar Sistêmica
Silvia Costa
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Ah, os livros que mamãe comprou para se entreter durante sua gestação arriscada! Neles, conheci o mundo, as línguas e a Psicologia. Tive sorte de encontrar as pessoas e os caminhos certos que me trouxeram aqui, no trabalho com desenvolvimento humano.

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