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A INFÂNCIA DE MEUS PAIS

A INFÂNCIA DE MEUS PAIS
Liane Antonelli
dez. 18 - 9 min de leitura
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Foto: casamento dos meus pais

Minha mãe teve uma infância que, suponho, tenha sido feliz. Era a 5ª filha na ordem de nascimento, sendo que o primeiro filho foi abortado naturalmente. A família veio de São João del Rei, MG onde nasceram os 3 primeiros filhos. Minha mãe nasceu em Resende RJ, na fazenda arrendada por meu avô que era pecuarista.

Nasceu de parto normal.

Meu avô sempre trabalhou muito e minha avô cuidava com capricho da casa e dos filhos. Morando na fazenda plantavam e criavam animais para subsistência da família e comércio. Meu avô estudou e foi um pessoa próspera à custa de muito trabalho e honestidade nos negócios que fazia. Puxou o pai dele que era tropeiro.

Na visão sistêmica, minha mãe foi a filhinha do papai e também da mamãe. Exemplo de filha estudiosa, prendada, caprichosa, educada se sobressaía da irmã mais velha que hoje, reconheço, tinha o perfil narcisista. Minha tia era geniosa, brava, não queria estudar, foi para colégio interno e saiu porque preferiu ser a cozinheira da casa e foi.

Com isso minha mãe se sobressaía ainda mais. Ela queria estudar piano e meu avô comprou um piano para ela. Era chata para comer e minha avó fazia o que ela queria todos os dias, farofa. Minha mãe sempre falava que ela era exemplo para as meninas da família e que as tias queriam que as filhas fossem como ela.

Ela dizia que isso se tornou uma grande responsabilidade. Minha mãe dizia para minha irmã e eu que percebia que nós duas estávamos sendo como ela, servindo de exemplo para outras primas, principalmente para as filhas da minha tia narcisista. Bom isto já dá uma outra história....

Meu pai também teve uma infância que me parece feliz. Era o filhinho da mamãe. Filho de imigrantes italianos que chegaram crianças nasceu numa fazenda de café em MG, onde meu avô trabalhava dividindo os lucros com o proprietário.

Minha avó teve 13 filhos sendo 11 vivos e os 2 primeiros abortados naturalmente. Minha avó cuidava das abelhas que produziam o mel para família e venda e dos porcos criados com o mesmo objetivo. Meu pai era o quinto filho.

Muito apegado a minha avó, ele contava que não queria estudar na cidade porque tinha que ficar a semana toda na casa de seu padrinho na cidade. Só voltava nos finais de semana. Sentia saudades da minha avó e dos irmãos. Meu avô fez questão que os filhos estudassem antes de trabalharem na fazenda.

Meu pai contava com muita alegria como ajudava minha avó a tirar o mel da colmeia, alimentava os porcos, colhia o café usando a peneira e outras atividades na fazenda.

Se entristecia quando falava da crise do café, quando por ordem do governo Getúlio Vargas, tiveram que arrancar os pés de café, colocar em valas e queimar. Perderam tudo.

Meu avô por insistência do filho mais velho, decidiu ir com a família para cidade de Resende RJ. Com os filhos jovens e com estudo conseguiram trabalho no comércio da cidade e prosperaram. Meu pai iniciou como garçom e chegou a ser o gerente da padaria em pouco tempo.

Meu avó comprou uma carroça e fazia frete. A vida não foi fácil mas, com estudo e oportunidade de trabalho, sobreviveram à muitas crises, trabalhando muito, ele dizia.

O casamento de meus pais

Hoje me dou conta que minha mãe tinha o masculino mais forte. Era mais racional, puxou meu avô. Quando se casou mudou de Caçapava para Resende onde meu pai tinha uma comércio e parou de dar aulas, era professora primária.

Meu pai era 10 anos mais velho que ela. Se casaram em Aparecida do Norte SP e a festa foi no salão paroquial ao lado. Tudo feito como minha mãe queria. Ela fez muitos enfeites e lembrancinhas do casamento. Ela era muito criativa, alegre, cuidava da casa, das filhas e dava atenção para minha avó, que quando nasci, apresentou um câncer de útero e precisou de cuidados.

Minha avó faleceu quando eu tinha 2 anos. Em casa sempre teve auxiliar doméstica que cuidava da casa e da comida. Minha mãe administrava a casa como ninguém, era econômica e gostava de cuidar das plantas, de arrumar a casa e de costurar para ela e para as filhas.

Ajudava meu pai nas roupas, pois ele não sabia combinar as peças para sair; com zelo ela deixava sobre a cama a roupa que ele deveria usar. Ela servia o prato dele nas refeições, pois como ele gostava de conversar, ela tomava conta se ele estava se alimentado.

Minha mãe elogiava muito meu pai e dizia que sentia pena das filhas, porque nunca iríamos achar um marido como ele. E ela estava certa! Minha mãe não elogiava as filhas, dizia que ficaríamos mal acostumadas.

Meu pai tinha o feminino mais forte. Era terno, meigo, elogiava as filhas maravilhosas que tinha, e dizia que minha mãe era a esposa perfeita. Ele falava com orgulho para nós e falava para os outros também o quanto ele era feliz.

Meu pai era autêntico, verdadeiro, educado, meigo, divertido, gostava de conversar, contar histórias e tratar as pessoas com respeito e consideração. Era muito querido por todos. Formavam um casal perfeito, se completavam! Tinham muitos amigos e eram muito atuantes na cidade = projetos em comum.

Lembro de meu pai, quando chegava em casa a qualquer hora, para avisar minha mãe que havia chegado, assoviava um trecho do canto de um pássaro e minha mãe, de onde estava respondia assoviando o trecho seguinte. Era lindo de ouvir... Nunca ouvi ou vi uma briga entre eles, apenas opiniões diferentes, insuficientes para causar uma discussão.

Meu casamento

Me casei no dia 18/07/1986. Casei virgem, pois este era o desejo da minha mãe e honrei a vontade dela. Uma grande festa para comemorar. Quando me casei segui a perfeição da minha mãe, herdada da minha avó. Queria tudo arrumado e organizado, casa perfeita!

Minha sorte é que meu marido também gostava de organização.

Esperamos 4 anos para ter nossa filha. Neste período nos conhecemos, viajamos aproveitamos a liberdade que tínhamos conquistado juntos. Quando nossa filha nasceu eu deixei as aulas e, com apoio do meu marido e pai, empreendi no comércio da cidade para ficar mais perto dela. Com mais tempo podia ficar em casa um período, e no outro eu ia trabalhar.

Meu marido trabalhava o dia todo em empresa, mas participava dos cuidados e atenção com ela. Eu tinha auxiliar doméstica que me ajudava.

Depois que minha mãe faleceu senti muita falta e após, um ano entrei em depressão o que afetou o meu relacionamento. Busquei tratamento e graças a Deus me recuperei e segui em frente me tratando. Hoje reconheço que cobrei muitas vezes do meu marido a postura terna, meiga e ágil do meu pai em atender as minhas vontades ou a atenção, perfeição e disposição da minha mãe. 

Hoje entendo e reconheço o quanto fui infantil e carente.

Vejo meu marido também carente de mãe pois, teve uma infecção de umbigo ao nascer e minha sogra conta q ele chorava muito e demoraram dias para descobrirem a causa. Ele ficava com a avó. Hoje reconheço que minha criança e a dele são carentes e busco cuidar da minha e dar atenção para a dele. Estou descobrindo no dia a dia como fazê-lo.

Hoje com 35 anos de casados reconheço que não foi fácil mas, sempre busquei ampliar minha consciência e entender os 2 lados da situação e não só o meu lado. Vejo que esta visão me manteve firme no relacionamento, sabia que cada situação vivida iria passar e sempre passou. Estas eram palavras da minha mãe: Tudo são fases, vai passar!

Desde o início do ano nossa filha aos 31 anos foi morar com o namorado e isso nos trouxe mais liberdade e cumplicidade. Reconheço que somos amigos, parceiros e adultos funcionais!

Quanto a sexualidade.... vai muito bem, obrigada!

#mod03

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