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A ira santa e a ira profana

A ira santa e a ira profana

Uma coisa que vem me chamando muita atenção nesses dias pandêmicos é a raiva com que as pessoas colocam suas opiniões, carregadas de ofensas e ironias pesadas. Ainda que, nas circunstâncias atuais, possam até parecer justificadas diante de olhos menos atentos ou corações muito inflamados.

Vale lembrar que a raiva é uma emoção primária que sinaliza frustração e/ou defesa. Portanto, é algo importante e vital. Porém, nessa Era que está quase findando, não devemos esquecer que essa emoção foi empurrada para debaixo do tapete como algo condenável. Pelo menos, eu fui educada em um ambiente onde sentir raiva era visto como feio e nossa raiva era subjugada com uma boa dose de... raiva.

Então, expressar as emoções é algo saudável e plenamente justificável, mas a forma como isso se dá faz toda a diferença quando se trata de viver civilizadamente. Eu, então, colocaria aqui dois tipos de raiva, a raiva produtiva que eu chamaria de ira santa e a raiva improdutiva, que vou chamar de ira profana. Bom, no dicionário raiva e ira são sinônimos, mas aqui vou usar a ira como algo que vai um pouco além de uma raiva natural, despertada em um momento de perigo real ou, mesmo, imaginário.

Nesse caso, coloco a ira como algo que pode levar-nos a cometer atos impensados e destilar certo veneno que uma raiva natural não teria tempo de elaborar, por ser instintiva. É como se a ira (nesse contexto) fosse uma raiva cultivada aos poucos, no dia a dia. Tudo hipoteticamente, é claro!!!

E o que seria uma ira santa ou profana? Precisamos primeiro entender que a raiva é uma energia acumulada, criada pelos hormônios e que quimicamente produz uma reação corporal de força. Então, essa energia é a mesma que pode nos levar a um ato impensado de quebrar tudo ao nosso redor ou de usar essa mesma energia para produzir um trabalho de cunho físico ou mesmo algo criativo.

A ira santa, ao meu ver, seria aquela que, diante de estímulos que veem se acumulando nesses nossos dias de quarentena, de disputas políticas, trocas de farpas, reclamações e xingamentos, levaria as pessoas a indignar-se e mover sua energia no sentido de atuar para modificar o quadro geral.

Mas, aí você pode argumentar: - "Eu não tenho poder para isso. Não depende de mim. São eles que não cumprem com seus deveres". E você estará correto (a). Existem coisas que estão se passando agora, que não estão ao nosso alcance para decidir. Mas, primeiro, está ao nosso alcance decidir qual postura tomar diante do quadro, e pensar até que ponto também não somos responsáveis diretos ou indiretos por toda essa situação. E eu digo que, em se tratando do estado geral do país, por exemplo, se somos maiores de 18 anos e já votamos alguma vez, somos coadjuvantes nesse "perrengue" todo.

Ou seja, a ira santa é aquela que nos move para um nível maior de consciência e comprometimento (e precisa ser os dois), atitude essa que nos fará participar, ainda que indignados, de uma forma produtiva e nos preparará para não repetir um looping eterno de erros históricos.

E a ira profana? Essa é mais comum e que causa prejuízos. Pode inclusive matar. Muitos infartados podem testemunhar os efeitos de uma raiva acumulada, mastigada e engolida. Ela faz com que percamos a compostura, o respeito, e nos leva a fingir uma tolerância que nos revira o estômago e termina por nos causar uma úlcera. Essa ira é alimentada de muita raiva reprimida, falta de consciência e comprometimento. É o oposto quase exato da outra ira.

Eu sei que falar é fácil, eu mesma embarquei em uma irazinha diante de alguns reclames do Facebook. Mas parei, analisei e cheguei à conclusão de que não desejo ter uma úlcera. Porque nesse momento, como uma mera cidadã, não posso votar ou esperar ser ouvida por alguma autoridade (in)competente. Mas, posso sim, fazer um exame de consciência, buscar informação e meios de conhecer melhor esse processo para que quando chegue a minha hora de, como cidadã, fazer a minha parte, eu não fique apenas repetindo como papagaio as conversas e Fake News que andei acompanhando. E mais, paro para pensar em que, como profissional, mãe, pai, educador, ou qualquer outro papel que cumpro como ser humano, posso colaborar para que os novos hábitos que deverão ser seguidos, comecem a ser implantados no meu ambiente.

Essa é, a meu ver, a diferença entre ser santo ou profano, ser útil ou apenas atrapalhar o caminho do Universo. Sei que nem todos estamos preparados para ter algum controle até sobre nós mesmos, já que esse processo de conscientização é lento e exigente, que é a evolução humana, mas nunca será tarde para aprender e mudar. Viva a nossa ira santa, ela pode mudar o mundo!!

Saber Sistêmico - Comunidade da Constelação Familiar Sistêmica
Simone Belkis
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Simone Belkis se formou em Letras na UFPR. É uma estudiosa do esoterismo e cantante. Seu amor maior são os livros. Escrever é sua forma de criar o famoso mundo melhor, e sua praia é contar suas próprias descobertas para inspirar pessoas.

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