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A santa e suicida ignorância

A santa e suicida ignorância

A Psicologia usa o termo Negação como: "um mecanismo de defesa que refere-se a um processo pelo qual a pessoa, de alguma forma, inconscientemente, não quer tomar conhecimento de algum desejo, fantasia, pensamento ou sentimento". (Referência:Wikipédia).

Mas, popularmente, chamamos de ignorância ou, de forma mais pejorativa e impaciente, burrice. O fato é que nesses tempos de Pandemia, a negação se tornou mais um quesito em destaque. E digo isso por perceber que o vírus apenas está forçando a maioria das pessoas a olhar para questões que lhes eram "indiferentes", no melhor estilo "tá ruim, mais tá bom".

E agora, encurralado no cantinho da parede, como barata fugindo de sapato de bico fino, o ser humano lança-se desesperadamente ao encalço desse milagroso remédio chamado negação, ou ignorância, e nos casos mais extremos, burrice mesmo. Desculpe a má palavra e a repetição, mas é para que fique fácil compreender como o ser humano usa seus mecanismos de defesa de uma forma tão inconsciente, que chega mesmo a ser assustadora.

Para esclarecer melhor, dou o exemplo que até agora mais me deixou perplexa, já que não tenho me dado a oportunidade de ver muitas das coisas inomináveis que têm aparecido na TV. Acho que já contei a vocês que não vejo TV (e acabo ficando por fora de umas coisinhas mesmo). Voltando ao exemplo, soube que manifestantes agrediram profissionais da saúde, não só verbal, mas fisicamente. Difícil ter palavras coerentes para classificar tamanha negação.

Porque é isso mesmo, a raiva e a consequente violência são o sinal mais claro da perda da razão. Quando o ser humano é tomado pela ira, vai muito além da defesa, colocando toda uma carga de frustração, que pode e tem levado muitos às vias (mais que) de fato.

Mas, como e por que isso acontece? Ao meu ver, começa pelo inegável medo da morte. Sabemos que existem culturas que entendem-na como a passagem para uma nova fase de vida e honram isso. Mas não é o caso da nossa cultura, temos várias religiões que nos contam como pode ser o outro lado, mas não nos dão garantias e nem nos preparam para o "pior". E segundo o que a mídia tem mostrado, até mesmo o ritual consolador da despedida no luto tem sido negado nas atuais condições.

A negação à única certeza da vida, a morte, é uma das mais profundas manifestações de negação, porque leva o sujeito negador aos braços abertos e acolhedores da "Senhora das Trevas". E isso é no mínimo bizarro. É claro que aquele que age dessa forma, não tem o mínimo de consciência do seu próprio comportamento. Então, por exemplo, se você nega o seu medo de morrer, de nada servirá ler esse texto.

Eu penso, que levando-se em consideração a nossa cultura religiosa é compreensível temermos a ideia da morte. Eu confesso que sinto um certo incômodo ao me imaginar morta. Mas, já fiz esse exercício (só um pouquinho).

Brincadeiras à parte, o fato é que a negação da morte vem em vários contextos, porque a presença do vírus é um convite irrecusável a mudanças que irão acontecer, custe o que custar. Então, não se trata apenas de perder a vida, mas o status, as regalias, os privilégios em detrimento dos interesses comuns. A negação também estende seus longos braços para esses casos.

Naturalmente, não creio que exista uma só pessoa que não tenha pensado, ainda que por um momento, no velho e conhecido refrão: "- Isso não vai acontecer comigo", isso é negação. Mas, o que tenho visto mais por aí, são pessoas saudavelmente assumindo seus medos e tratando de proteger-se o melhor possível. E claro, sempre tem os distraídos protegidos pelo acaso, como diriam os Titãs, na canção "Epitáfio".

O que de fato isso tudo significa? Que o ser humano ainda está no berço da evolução, arrastado pelo seu ego infantil que o leva a negar a realidade mais dura, fazendo com que ela se torne ainda mais difícil. Significa que pessoas, por temer a morte, estão de fato morrendo, como as que usam remédios não comprovados, ou as que não respeitam a recomendação de isolamento apenas porque querem ser donas de sua própria vontade, quando não são donas nem de sua própria consciência.

Para alguns, isso pode parecer uma crítica, uma falta de compaixão com as limitações humanas. Não é, também tenho minhas negações, também tenho medo de morrer, também gostaria que nada disso fosse real. Mas, seguir negando é correr para os braços do fim ou levar outros a esse fim. E o fim de que estou falando não se refere só à vida, mas também à oportunidade de uma vida mais digna, mais saudável, menos consumista, menos interesseira, uma nova forma de ver o mundo e respeitar o Todo. Porque disso se trata, morrer para tudo o que nos trouxe de mal. Obviamente, nossa geração talvez não veja essa nova vida, mas que tenhamos consciência para permitir e dar essa oportunidade para aqueles que ainda virão.

Saber Sistêmico - Comunidade da Constelação Familiar Sistêmica
Simone Belkis
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Simone Belkis se formou em Letras na UFPR. É uma estudiosa do esoterismo e cantante. Seu amor maior são os livros. Escrever é sua forma de criar o famoso mundo melhor, e sua praia é contar suas próprias descobertas para inspirar pessoas.

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