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Abuso e violência aos olhos do Direito Sistêmico

Abuso e violência aos olhos do Direito Sistêmico
MILENA PATRICIA DA SILVA
out. 3 - 5 min de leitura
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Quando pensamos no sistema carcerário, nas mudanças que precisam acontecer e nas injustiças que essa população sofre, nós dos direitos humanos somos massacrados, e alvejados com frases do tipo: "ahh está com pena leva para casa!"

Ou ainda, o que faremos com os estupradores? Você deixaria um estuprador solto?

Quando falamos em humanizar o sistema carcerário estamos falando em pensar nos serem humanos além de suas condutas.

Pois, ao avaliarmos as condutas e o histórico do perfil carcerário temos números expressivos relativos a essa população e posso dizer com propriedade que apenas 2% dessa população se trata de estupradores.

E falando neles, quase não falamos desse tema porque causa várias reações, desde  indignação, raiva, medo, repugnância, entre outros sentimentos que são naturais para os seres humanos funcionais. Porém, quando falamos de uma pessoa que estuprou ou abusou de alguém não estamos falando de um ser humano funcional.

Por isso, que julga-los de acordo com nosso mapa de mundo não cabe, pois não estamos calçando as sandálias daquela pessoa. 

O conhecimento sistêmico nos alerta da seguinte forma: a chance de um abusador te sido abusado é quase de 100%. Ao falarmos em números parece exagero, porém não é! Eu, como boa acadêmica que sou, sei bem do que estou falando quando digo 100%. Mas, até hoje, em minha carreira profissional enquanto terapeuta, professora e advogada, não conheço caso de pessoa que abusou e não foi abusada anteriormente.

Não estamos passando a mão na cabeça de abusadores, muito menos legitimando esses crimes, porém estamos expondo uma realidade pouco falada.

Abusadores, no passado foram abusados. Talvez alguém cometa um abuso maior do que o que contra ele foi praticado, entretanto quando falamos do universo sistêmico não estamos falando da justiça humana e nem da justiça de acordo com os nossos parâmetros. 

A justiça Sistêmica é outra. É num outro nível. 

É no nível do inconsciente e da ancestralidade. Quando falamos em justiça sistêmica, falamos nos níveis de desequilíbrios que acontecem nos sistemas, também.

Olhar para a história sistêmica da pessoa que cometeu um crime de abuso é compreender que houve uma raiz abusiva para que aquele indivíduo praticasse aquilo. Quando olhamos desse modo, passamos a compreender que ninguém consegue fazer as coisas muito diferente daquilo que fizeram com ele (a). 

Aquilo que somos é muito próximo do que nossos pais são, que é muito próximo do que nossos avós são. E assim sucessivamente. Desse modo, olhar com compaixão para a história do outro nos coloca num lugar de não julgamento e de empatia, para então compreendermos de algum modo esse universo abusivo. 

Não estou dizendo que todos que foram abusados irão abusar! Mas afirmo que todos que abusam foram, de algum modo abusados. 

Falando em abuso, nós sabemos que há vários tipos de abusos. 

Abuso sexual, físico, moral. E eles podem não ser trocados na mesma medida. Por exemplo: uma pessoa que foi abusada sexualmente pode vir a abusar moralmente ou psicologicamente de outra. Sendo assim, identificar as formas de abuso é importante para conseguir evitar que eles aconteçam.

Não quero falar apenas dos abusadores, mas também dos abusados.

Nós que fomos abusados (porque eu também fui), sentimos vergonha, medo, culpa. Temos sentimentos que muitas vezes nos impedem de comunicar que há algo acontecendo com a gente. É necessários deixar claro que nunca, em hipótese alguma o abuso é culpa da vítima. Estava de saia curta, retribuía de alguma forma, não contava a ninguém. Algumas frases que são ouvidas pelas vítimas de abusos sexuais são: não conte ao seu pai/sua mãe. Isso é só uma brincadeira. Você gosta também. Não tem nada de errado nisso! 

O silêncio ou qualquer outro comportamento não é anuência, mas sim medo. A pessoa abusada é colocada em um lugar que não a permite falar, muito menos pensar sobre tudo isso que acontece.

A ideia desse texto é trazer a informação.

De modo que nós adultos possamos identificar quando uma criança está sendo abusada. De modo, que nos nossos trabalhos consigamos lidar com a possibilidade de julgar, defender, acusar, uma pessoa que abusou de uma criança de 6 meses. 

Que possamos estar instruídos e com as mentes abertas para as discussões de assuntos polêmicos e difíceis. 

O raciocínio é o mesmo para o tema da violência. Violentados violentam. Quem violenta alguém provavelmente também foi violentado.

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