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AMAR COM AS MÃOS

AMAR COM AS MÃOS

UM RELATO DA APLICAÇÃO DA MASSAGEM REPARENTALIZADORA SISTÊMICA

Hoje temos duas clientes, são a quarta e a quinta de uma lista de dezessete, na linha da gratuidade, voluntariado e aprendizado.

Preparei-me no dia anterior. Fui dormir mais cedo, o que não é do meu costume... recolhi-me às 22 horas, pois no dia seguinte precisava estar bem, no meu processo de busca pela leveza de vida.

Acordei as cinco e meia da “madrugada”, preparei-me com um banho mais demorado que de costume, água morninha, como dizia minha mãe: água “bem esperta”, para lembrar ao meu corpo de que hoje temos uma bela missão.

Fui à Missa às seis horas, num mosteiro aqui perto. É muito bom celebrar com as monjas, essas mulheres de Deus, do silêncio, do sorriso e da oração.

Volto para casa, já mentalizando tudo que está para acontecer. O café da manhã também é mais leve que de costume, frutas, sucos e chá.  Em seguida preparo a casa. Sim a casa inteira, não só o espaço onde o encontro acontece. Na sala abro as janelas para entrar o sol, o vento, o ar fresco da manhã e também o barulho da vida que flui lá fora. Nos quartos arrumo tudo, para que depois não fique com a impressão de que o tempo do atendimento “atrasou” outras tarefas. Na cozinha preparo a água, o chá e tudo de que vou precisar para que elas se sintam bem acolhidas. A casa inteira está à disposição e se abre para acolher e amar os que chegam.

Elas chegaram... são duas adolescentes... são filhas de uma amiga da minha sobrinha. Mas eu não as conhecia. Com as duas juntas conversamos sobre a proposta da Massagem Reparentalizadora Sistêmica... Explico, cito exemplos..  e elas vão mostrando com sorrisos que estão entendendo e que estão muito interessadas.

Decidem entre elas quem será a primeira, cabendo a mais velha a tarefa de esperar na cozinha.

Só com a mais nova, uma princesinha de 16 anos, conversamos mais um pouco, ela diz que nunca experimentou nenhum tipo de massagem mas sabe que vai ser bom.  De fato, assim foi.

Estou usando a parte de baixo de uma bicama, é uma estrutura firme, sem ser dura e com aproximadamente 20 cm de altura, o que facilita os meus movimentos, pois uso uma almofada na qual me ajoelho e outra sobre a panturrilha que serve de apoio ao quadril. Faço tudo com muita Presença, respeito e reverência, ao som de músicas (violino) que costumo usar para meditação. Procuro trazer presente cada ensinamento, cada gesto e palavra da professora Olinda Guedes. Ao final, no momento de “dar colo”, desligo o aparelho e continuo cantarolando as canções de ninar que o Espirito me inspira.  Ela se aconchega como um bebezinho e “curte” muito o momento. Percebo que se emociona, e recomendo que respire profundamente, acaricio os cabelos e entrego todo afeto, todo amor que uma criança precisa para crescer feliz.

Ao final, peço que continue deitada de lado, da forma que se sentir mais confortável, e descanse pelo tempo que julgar necessário, quando se sentir pronta para se levantar e “tocar a vida”, eu estou aqui juntinho. Ela fica por alguns instantes, e quando se levanta, ofereço toalha, sabonete, pois no quarto tem um banheiro, e ela, se quiser, pode lavar o rosto, se recompor (sei que as adolescentes se preocupam com a aparência). Quando volta, ofereço água saborizada, ela acha uma delícia, e antes mesmo que eu pergunte como foi, ela vai contando que reviveu momentos muito agradáveis da infância na casa da vó, mas ao mesmo tempo a sombra de ter sido assediada por um primo e depois pelo padrasto. Os olhos se encheram de lágrimas. Senti que naquele momento, respeitar é não fazer perguntas, não buscar detalhes, apenas acolher. Depois orientei um pequeno exercício de “tomar pai e mãe”, e também algumas frases para ajudá-la a libertar-se do sentimento de culpa, vergonha e medo. Ela foi repetindo com simplicidade, mas com muita convicção e depois disse que se sentia mais leve, e disposta a seguir com alegria. Abraçou-me com muito carinho e despediu-se alegremente.

Fomos até a cozinha, tomamos chá, juntamente com as outras pessoas que estavam na casa e, depois de um breve intervalo, foi a vez da irmã mais velha.  Tudo completamente diferente. Ela tem 20 anos. E disse que tudo que sabe de massagem é o que viu em filmes. Conversamos um pouco sobre os estudos na faculdade, sobre o futuro profissional e outras coisas. Senti que a obesidade poderia incomodá-la, então indiquei o banheiro e lhe ofereci um roupão. Percebi que ela se sentiu mais segura. Durante todo o processo tive o cuidado de não deixá-la se sentir exposta. O roupão foi aos poucos, sendo substituído pelo lençol, à medida que o processo da massagem ia acontecendo. E ela foi se soltando e acolhendo cada toque como ele realmente é, afeto, carinho e amor que se dá com as mãos e a alma.

No momento do “colo”, senti que a minha voz, o ritmo da música e do balanço lhe era familiar.

Ao final descansou por um longo tempo, e eu fiquei ali, bem pertinho, velando pelo seu “sono”.

Quando se sentiu pronta, levantou-se, e mais uma vez, percebi que a ideia do roupão fez a diferença. Ofereci toalha e sabonete. Quando voltou, estava como elas gostam: “pronta”. Aceitou a água refrescante que ofereci e então, muito à vontade, conversou sobre as lembranças da infância, a presença da avó que cuidava e da saudade que sente dessa vó. Fizemos um pequeno exercício para acolher essa saudade.  E antes que eu perguntasse, ela pediu que gostaria de voltar mais vezes, pois sente que isso vai ajudá-la muito.

No abraço de despedida disse: “Sinto-me muito melhor, completamente leve”. Fez questão de já deixar agendado o próximo encontro.  

E eu, aprendiz de terapeuta, sinto GRATIDÃO por tudo e por todos.

Compartilhar aqui é a disposição para continuar aprendendo. Todo comentário será acolhido com amor e gratidão.

 

 

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