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As solidões que vem com a maternidade

As solidões que vem com a maternidade

Esses dias estava fazendo um curso com um grupo de pessoas e na hora do almoço um dos participantes, que havia virado avô há 8 dias, mostrava fotos do netinho recém-nascido. Em meio à “gemidos” e comentários carinhosos das colegas ele comentava sobre tudo que estava acontecendo com a filha que havia virado mãe e como sua esposa estava se dedicando para ajudá-la e apoiá-la nesse momento de puerpério. Até que ele finalmente se encorajou e disse: “mas quem realmente está sofrendo com tudo isso sou eu, que fui deixado totalmente de lado e agora tenho que ficar sozinho o dia inteiro.” Claro que a reação de todos nós foi cairmos na gargalhada. Mas ele continuou insistindo em sua dor e contou que não era só esses 8 dias, que inclusive todos os planos para as viagens de natal e ano novo já estavam sendo alterados e abandonados para que todos pudessem estar junto do bebê e dando assistência à mãe. Contou que ele não tinha mais comidinha fresca e variada todos os dias na mesa para seu almoço e janta e que estava se sentindo realmente muito sozinho. “Alci, até quando vai ser assim? Quando as coisas vão voltar ao normal?”

Muito se fala sobre a solidão materna tão sentida pela geração atual. A chegada de um filho tira a mulher do convívio diário com seus núcleos de amigos, colegas de trabalho, ritmos frenéticos, eventos, reuniões, celular tocando, vibrando e etc. De uma hora para a outra ela se percebe “sozinha”. Mas eu já escrevi sobre isso e logo posso postar esse texto de novo aqui, pois o que eu quero focar agora é sobre as outras solidões que eu nunca tinha parado pra pensar.

Quando tive meu primeiro filho, o Joaquim, minha mãe veio de Cianorte para Curitiba, mais de 500Km de distância e praticamente ficou 1 mês aqui me ajudando com o puerpério, a casa, o bebê e todas as outras necessidades que surgem. Quando minha irmã teve sua primeira filha não foi diferente. Assim como na chegada da Martina, minha segunda filha e da minha segunda sobrinha também. Imagina quanto tempo e quantos dias meu pai, avô dessa criançada toda, ficou sozinho?! Imagina quantos dias minha mãe ficou sem meu pai, sem seu ritmo em Cianorte, sem suas atividades, sem sua alimentação preferida, sem sua cama, suas amigas, seu trabalho e etc.

Que um filho traz mudanças e impacto para a família todo mundo sabe, mas será que nos damos conta da profundidade desse impacto? Tenho estudado e analisado a oportunidade que a mãe tem de repensar suas escolhas, valores e ritmos a partir desse “momento de solidão”, dessa aquietar do mundo, desse silêncio externo que nos permite ouvir o interno. Agora fico pensando, será que é uma oportunidade para os avós também? E as tias? E o marido? E a vizinha?

Não tenho respostas para essas perguntas, só sei que meu pai aprendeu algumas coisas com a distância da minha mãe nesses períodos. Pesquisou e frequentou alguns médicos alternativos e hoje faz um café da manhã todo especial para ele mesmo toda manhã com “aveioca” (tapioca feita com aveia e ovo), ovos cozidos e chá de alecrim. Além de passar o café e levar uma xicrinha para minha mãe na cama todos os dias antes de sair para o trabalho. E ele ainda quer mais netos!

É... acho que por traz do “estigma” da solidão existe muita oportunidade. E acho que a chegada de um bebê é mais impactante do que conseguimos perceber. Se hoje eu pudesse encontrar aquele meu amigo eu diria que com certeza que essa fase vai passar, mas se tudo vai voltar como era antes só ele pode dizer. E você, o que está fazendo com essa oportunidade?

 

Alcione Andrade

 

Saber Sistêmico - Comunidade da Constelação Familiar Sistêmica
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Mãe e Coach de performance e carreira, unindo as duas coisas para processos de autoconhecimento e escolhas mais conscientes e realizadoras.

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