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CARTA AOS ANTEPASSADOS

CARTA AOS ANTEPASSADOS
Iolanda Mieko Kofuji
mar. 10 - 6 min de leitura
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Querida mamãe, por tanto tempo não entendi a sua dor, pelo contrário, observava seu sofrimento com desdém, e pior, seu constante mau humor e a falta de um olhar, um toque, um carinho que me fazia encolher, como se estar feliz fosse feri-la. 

Por duas vezes eu a vi apanhando do meu pai, e isso me assustou muito, minha avó paterna sorria enquanto meu pai berrava , como eu deveria me sentir? Eu amava a senhora, mas também minha avó, meu pai...então eu tinha uma tática:  sempre te defendia quando minha avó falava mal , e vice-versa.

Mamãe, a senhora repetia, o tempo todo, histórias de dor, de abandono, raiva... que sua própria mãe, minha avó, a tinha enterrado na neve e deixada para morrer aos dois meses de idade, que só foi salva quando sua irmã mais velha foi pedir ajuda aos vizinhos.

Sei que minha avó dizia que a senhora era a filha que atrapalhava a vida dela. Mas quando tento entender que há mais de oitenta anos atrás, uma mulher que foi abandonada pelo pai de suas filhas para se casar com outra mais rica, era algo desesperador, penso que se fosse hoje , seria tratada como uma depressão pós parto.

Imagino como deve ter sido minha avó tentar sobreviver a tudo isso e embarcar no navio em busca de algo melhor. Sozinha, teve que se casar com qualquer homem que também precisava estar casado para poder embarcar. Assim ela ganhou um sobrenome, Onotera, de um homem que nunca mais se teve notícias...E esse sobrenome carregas até hoje.

Foram 40 dias de viagem  muito sofrida não é ? Muitas náuseas, mar sem fim...Vendo a mãe e todos os outros falando de suas desventuras, e também falando de sonhos, desejos  de chegar numa terra de grande abundância, onde brotava ouro a olhos vistos e a terra  era fértil , onde frutas despencavam maduras e que nem precisava plantar .

Mas sei mãe, que quando chegou nesta terra, foi tudo diferente, com  a II Guerra Mundial acontecendo, os japoneses eram do eixo inimigos da Aliança, e assim foram cercados de hostilidade. Tiveram que aceitar trabalhar de forma escrava para não morrerem de fome, nem arroz tinham para comer. E o medo? A senhora me conta sobre o medo daquelas pessoas de olhos grandes, que falavam diferente...

Mamãe, tento me imaginar crescer no meio de tamanha desolação e sofrimento, como a senhora foi forte...quando a avó se casou de novo, teve que cuidar dos seus novos irmãos enquanto sua mãe e padrasto iam para a roça. Lembro-me que a senhora me contava como era bater a terra para construir a cabana onde todos dormiam amontoados.

Mesmo assim a senhora cresceu, se tornou linda, estudou até a 4a. série, formosa , foi eleita a princesa do morango em Suzano e até dançou com o ilustre presidente Getúlio Vargas.

Neste momento nascia uma mulher , com sonhos e esperanças, e até começou a sonhar em se casar com um moço bonito que fazia seu coração acelerar...mas o destino a fez casar com um desconhecido, por causa de um costume japonês, onde os pais escolhiam com quem deveria se casar.

Na sua foto de casamento estava tão triste que tiveram que refazer a foto semanas depois, a foto oficial de casamento.

Mesmo assim tiveram cinco filhos, ou melhor, sete, pois teve um aborto entre eu e minha irmã mais nova, e outro , lembro-me bem, a senhora foi à Campinas para abortar, eu tinha dez anos nessa época, e não consegui entender muito bem.

Tantas histórias, tivemos uma boa fase com dinheiro farto, e depois as falências ...me lembro de nos mudarmos de noite, para fugirmos do locador, em Indaiatuba ,rumo à São Paulo, quanta tristeza...

E assim, catamos verduras e frutas que sobravam na feira, caídas no chão para reaproveitarmos, íamos no mercado pedir cabeça de peixe, pele de bacalhau, que logo se transformavam num banquete, sopa de peixe ou bacalhoada onde fazíamos a festa.

Mãe, eu sempre fiquei ao seu lado, desde bem pequena, quando a senhora lavava a roupa da família as 4 horas da manhã ,no escuro, sob luz de lamparina , ao lado do poço, para depois ir trabalhar na a roça. Lembro-me também mais tarde, em São Paulo, eu ficava arrematando os vestidos de noiva que a senhora trazia da oficina como extra, lembra que virávamos a noite? Eu queria tanto te ver sorrir.

Quanto sofrimento quando meu pai não voltava das viagens de comprador do CEASA, e atrasava o aluguel, te via chorar, pedir prazo para pagar o aluguel, pedir dinheiro para meus tios...

Um dia eu pensei, vou ganhar muito dinheiro  para nunca mais passarmos por tudo isso.

Quando começamos a trabalhar, levar o dinheiro para casa, nossa vida começou a mudar, compramos televisão, conjunto de copa e cozinha de dar inveja, tudo vermelho, geladeira também... E tudo começou a melhorar.

Hoje reconheço que seu modo de demonstrar amor por nós era diferente, não era com abraços, afagos  ou dizer palavras de carinho , mas era fazendo uma comida que gostávamos... E especialmente para mim, trazer duas balinhas de cevada quando ia fazer compras no centro.

Hoje a senhora está se apagando, as memórias indo  embora, parece que o sofrimento já não está mais tão presente, o passado se esvaindo... Memórias se desprendendo como pétalas de uma flor..

Sou grata por tudo que meus antepassados passaram , para que eu chegasse até aqui , sou grata por ter me dado a vida, mãe! E também sou grata ao meu pai... E este , com outra história à parte, muito linda também, de superação, força e de grandes de perdas.

Tomo a vida, com a força que vem da senhora e de todos que estão atrás! Gratidão! A vida é linda e irei honrá-la vivendo!

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