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CARTA AOS ANTEPASSADOS

CARTA AOS ANTEPASSADOS
Flávia Rodrigues Rocha
mar. 10 - 16 min de leitura
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Queridos antepassados, meus pais Nelson e Lenir, avós paternos Etelvino e Thereza, avós maternos Benedito e Augusta, meus bisavós, tataravós, e todos meus antepassados, eu sou uma de vocês.

Eu vivo numa cidade do interior de São Paulo, Brasil. Graças à todas as vivências de vocês, todos os sins que vocês todos deram , a vida chegou até a mim e venho agradecer!

Eu tive oportunidade de conviver com minha avó Thereza, até os meus 5 anos de idade e tenho ótimas recordações no seu quintal, que plantava muitas coisas, “para mim,  a vó era quase uma floresta, onde eu pude olhar com descobertas, e seu frango em molho com arroz branco, me recordo e sinto o sabor”.

Meus avós maternos, ah quanta saudade! tive a graça de tê-los pertinho, até meus 20 anos. Vou me recordo de me acompanhar até a porta da escola algumas vezes no primário, de nossas conversas diariamente, de seus exemplos e ensinamentos, de vê-lo trabalhando como barbeiro mesmo depois da aposentadoria, recebendo seus clientes, também idosos em nosso quintal, momentos de muito aprendizado para mim, sinto muita gratidão!

Minha vó Augusta, que alegria ter sua paciência ao brincar comigo, quando eu ficava dando voltas na casa e ficava passando “vendendo” folhas de árvores, como se fosse verduras e a senhora com todo carinho, enquanto fazia as tarefas da casa, me dava atenção. E todas as noites, seu carinho, seu colinho, poder apalpar sua “pelanquinha” do braço de forma carinhosa, de assistir televisão juntas, gratidão por estar sempre perto vó até meus 22 anos.

Me viu estudar, na universidade e me tornar psicóloga e que linda ter tido a graça da senhora na minha formatura. Sempre achei a senhora linda, por dentro e por fora.

Sou muito grata a todos vocês queridos antepassados, pude estudar, trabalho na área que estudei, graças ao melhor de vocês que vivem em mim, e eu pude fazer algumas coisas diferentes e hoje aqui estou para agradecer a todos que vieram antes, que prepararam caminho, que deixaram aprendizados e muito amor através dos sins à vida.

Acredito que tenho afinidade com muitos de vocês e carrego todos vocês comigo, um pedacinho de cada um, meus queridos antepassados. Tenho afinidade por assuntos, jeito de viver parecidos com todos vocês, alguns traços físicos.

O destino de vocês foi construído com muita luta, tiveram muitas dores e sofrimentos, mas se mostraram com uma coragem e uma bravura admirável, ofertando a vida para que outras gerações vivessem outras lutas, descobertas, usassem as forças pessoais, as forças de caráter, o sentido e o bem estar de estar na vida.

Olho hoje pra você minha mãe, que ainda tenho a graça de tê-la junto comigo na minha casa, sei que muito te julguei e ainda julgo muito o seu humano, tive e tenho o meu lado criança muito aflorado quando quero ser vista, mas sei hoje com todo respeito que me viu na vida que me deu, me viu no sagrado do momento da concepção, mesmo apesar da dor de ter perdido um filho, num acidente, meses antes de me conceber, teve essa força e essa coragem de engravidar novamente e me dar a vida.

Sabe mãe, tive ciúmes da sua dedicação as coisas da igreja, à sua atenção aos demais, me senti sozinha, carente, por não me achar vista por você, mas hoje vejo suas dores, seus emaranhados e sei que fez o melhor que pode, me deu o que tinha, ninguém pode dar o que não tem. Me deu o que ninguém podia me dar, a vida e cuidou s 9 meses no seu ventre e me deu o suficiente, para seguir e hoje estou aqui, escrevendo, gratidão mamãe!

 Meu pai eu também o julguei muito o lado humano, por muitos anos, de pequena até a vida adulta, por ser alcoolista, por ter amante, por ser violento, enfim tive um pai diferente, do que a minha criança gostaria, mas hoje pai, sou muito grata por ter me dado a vida, por ter me dado vivências que hoje são importantes para mim, realmente me preparou para o mundo, me deu o suficiente. Ah, e quero demonstrar aqui, já que não tive oportunidade em vida, pois faleceu quando eu tinha apenas 10 anos, nos seus 43 anos, que hoje também tenho 43 anos, a minha admiração pelo senhor, por muitos anos não foi fácil ouvir falarem do senhor, porque os meus julgamentos eram enormes, mas hoje quero expressar como é bom te imaginar, ouvir que era um excelente eletricista, saber que também era concursado e hoje escrevendo aqui, vejo suas dores, o quanto o senhor fez isso por lealdade e emaranhamentos, mas quero dizer que hoje consigo vê-lo grande e dizer que sou pequena. Pai, obrigada pelo seu sim a mim!

Pego o melhor de vocês queridos pais, graças ao sim de vocês, hoje vejo com mais clareza e gratidão, pude me interessar e buscar assuntos de desenvolvimento humano e pude buscar graças a vocês e o caminho preparado por todos que vieram antes de mim, pude e posso estudar, trabalhar e fazer terapias, ou seja fazer um pouco diferente, com a bênção da vida hoje posso ter um cuidado que muitos de vocês precisaram e não puderam.

Queridos antepassados, quero dividir que tenho saudade de todos vocês!  Meus avós maternos, agora me veio a simplicidade da casa de madeira, o quanto era bom tomar um café na varanda da cozinha, até senti o cheiro e o gosto das coisas, o gosto da tubaína, o cheiro do café, o pão, o queijinho. Que saudade! Muitas coisas que faço, me lembro o quanto devem “ficar” felizes, aí da onde estão, em me ver realizando.

Sabe meus pais, avós, queridos antepassados, quero pedir a bênçãos de vocês para ter uma vida de relacionamentos saudáveis, de crescimento pessoal, profissional e financeiro,  com a tão pedida paz que eu rezava, desde pequena quando em casa eu na minha infância achava faltar. Eu sei que a vida adulta, nem sempre é de paz, tranquilidade, muitas vezes é de luta, de dores, mas posso pegar as forças que me deixaram, que me ensinaram e até desobedecer alguns padrões, e lidar com a “consciência pesada”, de fazer algumas coisas diferentes de vocês.

Vejo muito de todos vocês em mim! Vejo como é forte a necessidade de pertencer, de fazer coisas parecidas, até iguais e assumo que dá medo fazer escolhas diferentes. Mas escrevendo isso me vejo fazendo algumas coisas que julguei em vocês e me vem em mente, que não precisar ser assim. E me pergunto: “Será que meus antepassados ficariam felizes de me ver fazendo algo um pouco diferente, algo que talvez eles não tiveram tempo para fazer, ou recursos que só agora posso ter através das oportunidades atuais?”

Tive dificuldades de assumir relacionamentos, de iniciar namoros, tinha a ideia de que casamento não era bem visto, então namorar também não, tinha um misto de vergonha e medo de namorar, mas não sabia porque, mas talvez por ter essa sintonia, lealdade,  com esse jeito que as mulheres passaram a ver a relação de casal, principalmente ou talvez, as mulheres da família materna. Minha avó materna fugiu de casa, com autorização da mãe, para poder se casar com meu avô. Imagino que essa vergonha, essa sensação de coisa errada e medo presente em mim, pode ter vindo daí. Nunca tinha pensado nisso. Será?

Antes dos meus avós falecerem, mesmo eu já sabendo desta situação de terem fugido, meu avô me contou e minha avó ficou com muita vergonha e se justificou várias vezes, que foi pra casa de uma madrinha e só viveu como mulher dele, depois de casada.

Meu avô materno, perdeu os pais ainda jovem, ele era natural de Avaré, e sua mãe era de Botucatu – SP, o seu pai não sei de onde, mas acredito que também do interior de São Paulo. Ele cuidou das suas irmãs até se casarem, ficando a caçula morando com meus avós, até se casar. Ele sempre gostou de receber bem as pessoas em sua casa, sempre tinha uma visita em sua casa, mesa farta, casa aberta para acolher quem precisava de pouso. Ele era um ótimo barbeiro, teve sua barbearia até se aposentar, e depois trabalhou no quintal da sua casa, até seus 86 anos. Sinto muito orgulho do senhor, vô Dito.

Minha avó, filha de italianos, o pai dela, veio da Itália e chegou no porto de Santos, foram pra região de Mogi Mirim, aqui no estado de São Paulo, mas quando ela era recém nascida eles vieram pra região de Presidente Prudente, onde compraram um sítio, vieram desmatar, mas ele morreu e a mãe dela casou com o irmão dele. Não sei se casou no papel, creio que sim, pois ele era solteiro e ela ficou viúva e com 5 filhas pequenas. Esse meu tio avô, tio padrasto da minha avó, queria o casamento dela com outra pessoa e não com o meu avô. Não sei o motivo, mas meu avô era pobre, morava com duas irmãs solteiras e mais novas, que ele cuidava e sustentava, vivia em “casa” cedida pelo proprietário de um sítio e ele se interessou por minha avó. Minha bisavó materna concordou e ajudou a minha avó fugir, para casar com meu avô.

O primeiro filho dos meus avós maternos, faleceu no parto e isso foi algo difícil e pouco falado, sei o nome do meu tio, Aparecido. Minha avó sofreu e temia muito engravidar, e a minha mãe é a segunda filha, deve ter sido muito difícil esta gestação, mas meus avós tiveram muita coragem, minha mãe nasceu e graças à essa coragem eu e meus irmãos também.

Meus avós paternos, eram pessoas simples, pobres, muito trabalhadores. Meu avô viúvo com duas filhas, ele eu não conheci. Esse meu avô, veio ainda criança fugido de Minas Gerais, natural de Ouro Preto. Parece que veio fugido dos seus “cuidadores”, o pai faleceu antes dele nascer e sua mãe faleceu no parto.  Ele era de cor parda, imagino que um dos seus pais era de raça negra. Segundo sei quando ele faleceu meu pai morava em São Paulo e não teve tempo pra ver o pai morto, pois na época as viagens era de trem e não daria tempo de chegar para o enterro. Creio que isso mexeu muito com o emocional do meu pai. Falam que meu avô era uma boa pessoa, então imagino um homem carinhoso.

O casamento imagino que não era fácil, sempre ouvi que ele um dia levantou a mão pra minha avó e que ela mordeu o dedo dele e teve que operar, amputou uma parte.

Minha avó, sempre ouvi que tinha descendência indígena, percebo algumas afinidade nos traços com ela. Escuto que ela era brava, nervosa, e minha mãe fala que tenho muito dela. Ficou viúva muito jovem e ficou com 3 filhos pequenos, sendo a caçula de colo ainda e levou ela quando se casou com meu avô e os meus tios mais velhos, ficaram com os meus bisavós paterno.

Escrever isso me gera um pouco de desconforto, filhos longe, irmãos separados. Ela quando se casou com o meu avô, levou apenas a caçula do primeiro casamento, meu avô já tinha duas filhas do primeiro casamento e depois juntos tiveram 3 filhos, sendo o meu pai o mais velho, desta segunda união, e em seguida minha tia Neusa, ainda viva e minha tia Norma, falecida depois de ter sofrido uma grave queimadura.

Sinto que preciso falar desta tia caçula, da primeira união da minha avó, ela sempre foi amarga, difícil, demonstrava uma dificuldade com o meu pai e conosco filhos dele, e minha mãe esposa. Quando minha avó faleceu, eu tinha 5 anos, e me lembro de gostar de almoçar com ela, me lembro do quintal com muitas plantas, pra aquela criança era algo pra desbravar, sinto saudades.

Enfim, minha avó estava morando na minha casa e alguns documentos ficaram em casa, quase 20 nos após a morte da minha avó, eu sugeri para uma prima morar na casa da minha avó, meu irmão chegou a comentar a mesma coisa pra minha prima, mas como foi na frente desta minha tia, a caçula da primeira união da minha avó, isso deu muita confusão, pois a mãe dela, a minha tia, achou ruim, que estávamos nos comportando como se fossemos donos da casa da minha vó paterna e ofendeu muito o meu irmão, fez escândalo com gritaria na frente da minha casa e quando cheguei do trabalho, minha mãe estava passando mal devido o ocorrido.

Eu então acabei pegando o documento da minha avó e fui até aquelas pessoas que foram ofender minha mãe em casa, lá estava minha tia e seus 5 filhos e uma nora, orei no caminho e eu pedi pra entrar e entreguei o documento da casa da minha avó, e falei a senhora tem o direito de pedir esse documento na prefeitura, mas aqui está, apenas ficou em casa porque a vó morava em casa, e meu pai guardou, mas pode procurar advogados que eu, meu irmão e minha mãe, abrimos mão da nossa parte,  mas foi muito estresse por que eram palavras muito fortes que eles falaram contra meu pai e meu irmão. Parece que ela não tinha visto naquele dia não o meu irmão, e sim meu pai. Ela falava do meu pai com muito ódio. Após este dia difícil, eu chorava e orava muito pra DEUS acalmar a boca dela, ela falava coisas muito pesadas, uma das falas foi chamar por várias vezes o meu pai de demônio, logo em seguida, coisa de semanas, desenvolvi uma doença autoimune chamada esclerodermia.

Hoje vejo que me envolvi em problemas que não eram meus e sim dos grandes. E já tive a graça de devolver essa situação para a minha avó paterna em constelação.

Concluo esta carta, dizendo que vejo a grandeza e a força de todos vocês, que fizeram o que foi possível, que me deram o suficiente e quero dizer na figura desta minha tia paterna, eu vejo sua dor tia, o seu sofrimento, e digo com todo respeito são suas essas dores, não minhas.

Digo para todos vocês, meus queridos antepassados, vocês são grandes, corajosos e sou grata por terem passado a vida adiante, apesar de tantas dificuldades, dores e sofrimentos.

Eu sou a Flávia Rodrigues Rocha, uma de vocês: a filha, a irmã, a neta, a bisneta, a tataraneta, a sobrinha, a prima, enfim uma de vocês!

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