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CARTA AOS MEUS ANTEPASSADOS

CARTA AOS MEUS ANTEPASSADOS
Adelzira Soares
ago. 4 - 8 min de leitura
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Quando o amor convocá-los, sigam-no, embora seus caminhos sejam árduos e íngremes” K. Gibran

Queridos antepassados,

Eu sou Adelzira, filha de João Paulino de Sousa e de Rufina Maria de Sousa.  Sou 8ª ou 10ª filha, nascida de 13ª gestações contando com dois não nascidos, apesar de não ter muito certeza desse número, e da ordem exata, por conta dos abortos e de uma gestação ter sido de gêmeos.

Tenho 65 anos, sou casada com José Soares Ribeiro, grande homem, esposo, pai, e excelente profissional. Temos 03 filhos, dois nascidos (Sandra Letícia, Carlos Eduardo, falecido aos 37 anos e hoje mora com o Papai do céu, e um não nascido) apesar de não ter certeza e sete lindos netos.

Escrevo essa cartinha, para falar do além do aparente, do vinculo de amor que nos une, como um fio invisível, porém muito forte, que tece e perpassa o tecido das histórias das gerações, e que fez com que a vida chegasse até mim. E por isso meu coração se enche de alegria, poesia, amor e gratidão.

Sim, lembrar o amor, porque só quem ama, trabalha, se doa, e luta pode preservar a vida para a sua posteridade às futuras gerações, e, mesmo sem saber, mas intuitivamente, transmite sua força, sabedoria, fé, seu vigor e o desejo que a benção perpasse gerações.

Queridos antepassados paternos, apesar de não saber nada sobre vocês, meu coração se alegra, por toda luta e dor pelo qual passaram e os acolho em meu coração. Vovô, não sei nem o seu nome, mas hoje eu o vejo, e o acolho com carinho e gratidão no meu sistema familiar.

Vovó Joaquina, agora eu a vejo e sinto sua dor de ter ficado viúva de uma forma tão trágica, a morte por assassinato do vovô e ficado com a responsabilidade de criar os filhos, ter perdido seus bens, deixar sua terra natal, o Ceará, e fugido para a Bahia com seus filhos.

Ter que deixar para trás meu pai com um tio, e que o mesmo teve que mudar seu sobrenome e assumir o do seu tio, para deixar para trás essa história de tragédia e dor, e por medo de vinganças. Agora eu sei! Agora eu a vejo e a acolho com carinho e gratidão por tudo que fez por mim.

Queridos antepassados maternos, nesse momento meu pensamento é transportado para a saga de vocês, povos indígenas, de quem herdo a coragem e a resiliência, o amor pelas plantas e pela terra, tempos longínquos; um povo forte, guerreiro e vigoroso, os índios Cariris do Nordeste, descendência indígena da minha mãe.

Agora eu sei, agora sinto, agora os vejo meus queridos antepassados.

Vocês viviam livres e felizes, mas foram dominados, e algumas mulheres levadas à força, pegas a laço para se tornarem escravas, esposas e amantes de homens truculentos (os holandeses que aí chegaram 1953 para invadir e dominar.

Querida antepassada, agora eu te vejo, sinto sua tristeza, seus medos e a saudade do barulho do riacho com suas águas correntes, límpidas e frescas... do vento balançando as folhas das arvores... soprando como um poema de amor, sua oca, seu paraíso e o belo canto dos pássaros, o barulho do tambor, os animais, banho de rio, as plantas e os ipês floridos, anunciando o esplendor de sua resistência em viver, florir e alegrar.

Agora sei porque gosto tanto do mato, do seu cheiro, gratidão!

Meus antepassados holandeses, apesar da raiva e tristeza que senti pelo que vocês fizeram, quero dizer para vocês que não aprovo a invasão holandesa no Ceará, pois isso acarretou muita dor para esse povo valente inteligente e trabalhador. Mas, não quero ficar com esse sentimento dentro de mim.

Assim, eu os perdoo e sou grata pela luta e esforços que fizeram para que a vida chegasse a mim. E, por isso eu os acolho com gratidão e amorosidade, sem julgamento.

Querido papai João Paulino de Sousa, você é um grande homem, marido e pai amoroso, eu o amo e sou grata. Agora sei que esse sobrenome foi herdado do seu tio após a morte do querido vovô. Eu sinto a sua dor da saudade de sua mãe que foi para a Bahia e você ficou com seu tio.

Agora eu sei que seu sobrenome verdadeiro é Pereira. Pereira nome de uma arvore frutífera, que dá uma fruta muito saborosa, a pera. Agora eu sei que esse sobrenome e de descendência portuguesa, da família de Bragança.

Papai eu o perdi muito cedo, e quanta falta você me fez. Me senti desprotegida e por vezes na minha inocência o culpei por ter me deixado. Agora eu sei, agora eu vejo toda sua luta para criar dez filhos, passando muitas necessidades. Gratidão paizinho querido.

Querida mamãe, grande mulher! Graças a você me tornei a mulher que sou hoje. Agora eu vejo e sinto a sua luta e sua dor e sofrimento. A perda da vovó, quando voce estava com onze anos, de câncer num campo de refugiados da fome em 1932 no Ceará.

Agora eu sinto o sofrimento de uma viagem de trinta dias de pau-de-arara do Ceará até o mato grosso, hoje Mato Grosso do Sul, enfrentado todo tipo de dificuldade, a fome doença e a perda de uma filha de seis meses por desidratação devido as dificuldades da viagem.

A perda do meu pai e do meu padrasto, ambos por problemas cardíacos e de três filhos acometidos de câncer. Agora eu vejo e sinto sua força e fé.

Mãezinha eu escrevi antes de sua partida um poema dedicado a senhora, mas nunca o tinha apresentado a ninguém, nem para a senhora, agora o transcrevo em sua homenagem aqui, para lhe declarar o meu amor e gratidão por tudo que fez por mim.

SAGA DE UMA MULHER

Traz nas mãos o calor de um afago...

No rosto, marcas da vida.

Nos olhos cansados, vestígios de uma lágrima...

Nos lábios, um generoso sorriso.

No coração, que bate descompassado, muito amor, e saudade...

Nordestina muito fértil,

Teve treze lindos rebentos

Dois não conheceu o céu, o sol, o vento...

Foram enterrados nas entranhas

Não chegaram a nascer, morreram no ventre...

Mulher forte e corajosa

Sempre de cabeça erguida...

E lá vai ela, passo a passo, serena...

Passando pela vida.

Desde muito pequenina

Enfrentou dor e sofrimento

Conheceu a fome a miséria, provada pela vida,

mas amparada por Deus,

Sustentada pela fé firme, daqueles que só em Deus espera.

Hoje, cabelos brancos, passos lentos...

Semblante suave...

Me ajudou a crescer, levou-me a fé

Me orgulho de fazer parte

Da vida... da história... da saga desta mulher!!!

 

Hoje eu me sinto livre e feliz, pronta para continuar minha jornada, como uma cabocla, correndo nos campos, com os cabelos soltos ao vento no entardecer... feito pássaro, sem medo... a cantar alegremente e amorosamente a melodia do amor...

E todos vocês, meus queridos antepassados, eu os acolho e os trago comigo eternizando-os em meu coração e em minhas orações diária, com muito amor e gratidão!

Não é uma despedida, mas um até logo, na certeza de uma fé convicta e da esperança de um encontro festivo, um dia no céu junto a Deus misericordioso, por quem logo pequenina me deixei seduzir ao ouvir sua voz e que todos os dias me acolhe e me carrega em seu colo amoroso, na espera desse encontro eterno e feliz.

Como disse nosso papa emérito, Bento XVI: “Não me preparo para um fim, mas para um encontro”.

Abraços amorosos, floridos.

Adelzira Sousa Soares

#amoreterno

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