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CARTA AOS MEUS ANTEPASSADOS

CARTA AOS MEUS ANTEPASSADOS

Queridos antepassados, tenho vivido dias de grande aprendizado, estou nessa busca de me auto conhecer e de me curar.

Tenho algumas lembranças da época em que nós íamos para o sitio dos meus avós paternos. Eu não gostava muito de ir para lá por conta das longas viagem na estrada de chão. Me recordo das vezes em que eu passava mal na viagem, isso quando não era a uma das minhas irmãs. Lá não tinha energia elétrica ou água encanada, a noite a luz vinha dos lampiões e a água pegávamos em um poço do vilarejo.

Me lembro das festas de santo e das vezes que a família se reunia para fazer farinha de mandioca e doces de caju, da minha vó escondendo as bocaiuvas deliciosas e de meu avô, que chamávamos carinhosamente de papai José, contando as histórias a beira da fogueira antes de irmos dormir.

Recordo vagamente da minha bisavó paterna, das vezes que chegávamos no sitio e ela mesmo debilitada por conta da idade, queria que sentássemos em seu colo para ela cantarolar uma canção animada.

Depois de certo tempo fomos indo cada vez menos para lá e acabei convivendo mais com meus avós maternos, onde as reuniões de família era sempre cheias, com meus tios e tias. Eu adorava ficar no meio daquela bagunça. Na casa mal cabia todo mundo. Lembro das visitas que meu avô materno nos fazia aos domingos, ele sempre bem alinhado e de chapéu, era um homem que empunha muito respeito pela sua postura, muitas vezes dura, mas de muita sabedoria.

Me lembro de sempre pedir para que ele me benzesse de arca caída. Minha avó materna sempre foi amorosa e carinhosa, fazia nossos uniformes escolares, e é claro, aquela comida gostosa. Aprendi a gostar de comer fígado por conta do seu tempero delicioso. Me lembro do dia em que cheguei com um buquê de flores para ela, ficou tão emocionada... ficou mais emocionada com flores do que com a geladeira que tinha acabado de ganhar de um dos meus tios.

Embora as constantes brigas dos meus pais, que me entristeciam muito naquela época, eu me lembro dos momentos de alegria, quando eles ainda viviam juntos. As brincadeiras do meu pai e os apelidos carinhos que ele nos chamava, da minha mãe sempre de cara amarrada... hoje eu a entendo, afinal ela se casou muito jovem, forçada pelo pai que não admitia ter uma filha mãe solteira.

Hoje com 46 anos, com um filho lindo de 20, iniciando um novo relacionamento, tenho procurado ser a melhor mãe e companheira. Tive um período desafiante quando me separei do pai do meu filho, dificuldades financeiras. Tive que trabalhar o desapego e começar do zero, perdi a conta de quantas vezes dormi chorando e desesperada com as responsabilidades que só aumentavam, assim como as dívidas.

Hoje tenho a oportunidade de olhar tudo que vivi nesses últimos 4 anos (tempo em que me separei), como grande aprendizado. Hoje sou mais forte e aprendo a cada dia me tornar uma pessoa melhor.

Por fim, percebo que nessa busca por conhecimentos e aprendizados descobri afinidades com todos vocês, afinal carrego os seus genes e a energia de vocês. Sinto saudades da época em que eu podia correr pelo quintal da minha avó paterna e das histórias de papai José a beira da fogueira, de ver minha vó Joana sentada costurando nossos uniformes, de dormirmos embolados e recebermos o carinho de meus tios e tias.

Sinto saudades dos antepassados que não conheci, mas sei que estão em meu sistema familiar. Sou grata por tudo que vocês fizeram para que eu chegasse até aqui. Eu honro e agradeço todos vocês, vocês são importantes para mim e para o meu crescimento nessa vida, eu vejo vocês.

Com carinho, amor e respeito,

Hellem Benedita Martins de Magalhães

Cuiabá – MT, 09 de fevereiro de 2021

Saber Sistêmico - Comunidade da Constelação Familiar Sistêmica
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