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AGORA ME COLOCO EM MEU LUGAR

AGORA ME COLOCO EM MEU LUGAR
Paula Azevedo
abr. 27 - 24 min de leitura
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Quando conhecemos o amor, quando amamos, é possível enxergar o passado com outros olhos, é possível transformar o presente e sonhar o futuro.

Esse é o poder do amor.

O amor cura. Bell Hooks

Meus pais se chamam Antonio Alves de Azevedo Filho e Regina Célia Marins Araújo de Azevedo.

Meu pai tem 69 anos e minha mãe 64.

Hoje eles estão separados, meu pai saiu de casa há mais de sete anos, mas eles já estavam separados de corpos desde 2008.

Nunca vi meus pais trocando carinhos, minha mãe se mostrava bem durona, seca, áspera.

Meu pai era mais carinhoso.

Lembro-me do meu pai trazendo lingerie para minha mãe, calcinhas, soutiens, depois mais tarde ouvi minha mãe dizer que sentia sua liberdade cerceada com os presentes que ele lhe trazia, ela interpretava como sobras, migalhas.

Parece que para ela, o que ele lhe dava nunca era o suficiente.

Meus pais tinham um arranjo, não uma relação.

Eu não sei se houve amor entre eles, para mim, para nós, seus filhos, eles nunca falaram de amor, nem do amor que pudessem sentir um pelo outro.

Enquanto éramos crianças, eles se mantiveram calados, enquanto fomos crescendo, se sentiram livres para fazerem queixas um do outro.

Dava para perceber que ambos estavam frustrados com sua relação, mas em vez de tomarem uma atitude adulta, ambos disputavam para saber qual dos dois era mais vítima do que o outro.

Meu pai não é de falar muito sobre si, as informações que tenho do início do relacionamento deles foram me dadas pela minha mãe ao longo da minha vida. Minha mãe disse que antes de namorarem, foram amigos por mais de 5 anos. Minha mãe também omite certas informações, quando fala, expõe o quanto se sente pesada e cansada na relação, nunca falou de paixão, de enamoramento.

 Ela não fala de datas, algo do tipo, foi no ano tal, mês tal, isso sempre foi algo que me intrigou.

O que me parece é que eles se conheciam, e se relacionavam há mais de 05 anos como minha mãe me falou, mas entre o início do namoro e o casamento, se passaram poucos meses.

Em abril de 1976 no casamento do meu tio Alceu, minha mãe estava solteira, um ano depois, estava grávida.

Eu nasci em meados de julho de 1977, minha previsão de nascimento era agosto, então, pelas minhas contas minha mãe engravidou em novembro de 1976 de mim.

Eu fui o motivo que os levaram a se casar.

Minha mãe fala que minha avó era muito moralista e que a recriminou pela gravidez, disse que minha avó e meu pai cogitaram em que ela abortasse, mas que ela não teve coragem de seguir adiante com a ideia.

Meus pais se casaram em 23 de abril de 1977 no cartório.

Não houve registros deste acontecimento como fotos ou outras recordações.

Em 13 de julho de 1977 eu nasci.

Eu percebia a vida conjugal deles muito misturada com a minha vida.

 Sinto como se fosse minha obrigação carregar este peso em meus ombros. Parece que não havia uma narrativa antes da gravidez, ou que o que aconteceu antes da gravidez devesse permanecer escondido.

Quanto eu tinha 03 anos, meus pais passaram a frequentar a Igreja Batista, as igrejas costumam muito investir nas famílias.

Penso que talvez se não fosse a igreja, meus pais pudessem estar separados há muito mais tempo.

A Igreja com todo seu corpo doutrinário, e com sua natureza conservadora, faz as pessoas permanecerem em seus casamentos, mesmo que estejam insatisfeitas e infelizes.

Meu pai veio de uma família evangélica, meus avós eram da igreja assembléia de Deus, mas meu pai não fazia parte da igreja na juventude, pelo contrário, meu pai abusava do álcool.

Ir para a igreja foi uma tentativa dos dois de arrumar a casa, legitimar o casamento deles, afastar meu pai do vício e criar sua criança em um bom caminho.

Meu pai entrou para a prefeitura via concurso público em agosto de 1976.

Ele foi fiscal de tributos em nossa cidade.

Tinha um emprego público, um salário razoável, todavia, vivíamos em permanente estado de escassez.

Nunca nos faltou comida, roupas, brinquedos, mas parecia que tínhamos menos do que poderíamos.

Minha mãe é empregada doméstica.

Sempre trabalhou.

Dizia que gostava de ter seu próprio dinheiro, sempre pareceu mais próspera que meu pai, um centavo que fosse nas mãos dela sempre renderam.

Desde que me entendo por gente, meu pai sempre esteve endividado.

Não tenho dinheiro é um mantra, aparentemente era um sofrimento para ele, mas parece que ele se sente confortável nessa posição de permanente impotência.

O dinheiro o levaria para lugares que ele não se permitiu entrar e ficar.

Penso que esta questão financeira, as constantes dívidas do meu pai, por certo afetaram o relacionamento dos meus pais.

Por volta dos anos 1990, minha avó materna se aposentou.

Minha tia Selma era sua procuradora e foi ela quem recebeu o acerto de contas do INSS da minha avó.

Eu não sei ao certo como foi o acordo, mas ela e minha mãe pegaram parte deste dinheiro e pagaram todas as dívidas do meu pai.

Dali em diante não haveria mais dívidas.

Eu me lembro de ter ficado muito feliz, afinal de contas as dívidas eram o impedimento para muitas coisas, como a conclusão da obra da casa, por exemplo. Mas dali a poucos meses, meu pai estava envolvido com dívidas mais uma vez.

E até hoje é assim, ele não vive sem as dívidas.

Acho que as dívidas ocuparam o lugar da minha mãe no casamento.

A igreja trabalhou como pôde a dimensão do casal dos meus pais, eram os jantares anuais dos namorados, a escola bíblica dominical, e mais tarde, o encontro de casais com cristo.

Meus pais trabalharam por muitos anos nestes encontros.

Um ano tem 52 finais de semana, meus pais ficavam fora pelo menos 40 ou mais finais de semana, eu estava na adolescência e ficava sozinha em casa com minhas irmãs.

Meus pais trabalharam nos encontros, mas não se trabalharam.

Foi neste local ou nestes locais que ficou evidente o quanto o relacionamento deles era disfuncional.

Minha mãe era líder do grupo que cuidava da música dos encontros, ela trabalhava melhor junto com outras pessoas do que com meu pai.

Parecia que qualquer pessoa ou situação era melhor do que ele.

Meu pai sempre teve uma vida dupla.

O salário que ele recebia da prefeitura e a vida que vivíamos eram incompatíveis.

Mais tarde soube o motivo da falta de dinheiro, ele sempre ia para outras pessoas.

Meu pai sempre teve amantes, um homem sistematicamente infiel.

Ele não era de sumir, nem de viajar, sempre estava em casa nos mesmos horários, mas em algum ponto entre sua saída pela manhã e sua chegada à tarde, esses encontros com as outras mulheres aconteciam.

Eu, filha dele soube dos casos em 2008, já casada, numa visita a casa deles, sentei ao computador para acessar o orkut, rede social da época, e vi um perfil do meu pai, e li uma conversa dele com uma amante.

Chamei minha irmã mais nova, que printou a tela.

 Mais tarde ela mostrou para minha mãe, que não sabia daquela situação específica, mas declarou saber de todos os casos que meu pai teve durante a vida, só que nunca nos contou.

Ela escolheu permanecer com meu pai, por questões financeiras, e por outras questões que acredito eu, ela mesma desconhece.

A partir desta situação, ela propôs ao meu pai que se separassem, mas que permanecessem debaixo do mesmo teto.

E assim foi quando em janeiro de 2013, meu pai saiu de casa.

O processo do divórcio deles foi concluído neste ano de 2020.

A postura da minha mãe diante do meu pai é de permanente inocência.

Ela é a vítima, ele é o culpado, quando meu pai fala da minha mãe, e de qualquer outra mulher, a dinâmica é a mesma.

Ele sempre busca mulheres fortes, que o subjuguem, mas que de uma forma sejam impotentes financeiramente, para que assim, ele possa ajuda-las.

Quanto a minha mãe, ela é tão inocente que não quer mais se relacionar com ninguém, não quer se sujar se envolvendo com homens.

A infância da minha mãe, ela é a terceira filha nascida dos meus avós Paulo e Eunice.

Do meu avô Paulo, ela é a sexta nascida, da minha avó Eunice, a quarta.

O primeiro filho da minha avó, teve sua paternidade não revelada e ele foi registrado pelo meu avô.

Já meu avô Paulo, teve 03 filhos em seu primeiro casamento: Maria, Zezé e Paulino.

As idades de sua esposa, minha avó e de Zezé, sua filha eram muito próximas, minha avó era muito mais nova que meu avô, tinha idade para ser sua filha. Minha avó nunca mencionou o pai da minha mãe em quaisquer conversas que teve conosco.

Na minha infância, ela teve um namorado chamado Tião, mas nuna a vi mencionar o meu avô.

Minha mãe cresceu com seus quatro irmãos: Almir, o mais velho, Sônia, Alceu, e Selma a caçula.

Minha mãe fala de uma gravidez gemelar da minha avó em sua infância depois do nascimento da minha tia Selma.

Fala que minha avó passou mal e foi levada para o hospital, e que lá as duas crianças foram expelidas do corpo da minha avó sem vida.

Ela fala que gostava de sair com a minha avó, quando era bem pequena, antes da minha tia nascer, elas têm uma diferença de seis anos.

Ela fala que minha avó cantava, quando eu era criança, minha mãe também cantava muito enquanto fazia as tarefas de casa.

Minha mãe tinha 8 para 9 anos quando minha avó expulsou meu avô de casa.

Eu nunca soube o porquê até ter saído de casa para estudar, e ter ouvido o relato de uma amiga que me confidenciou que seu irmão abusava sexualmente dela e de suas irmãs.

Eu ouvi claramente vozes e imagens que me falavam que meu avô havia abusado de suas próprias filhas.

A voz me guiava até para questionar à minha mãe sobre a veracidade daquelas informações, e assim fiz e confirmei a história.

Segundo minha mãe, meu avô abusou da minha tia Sonia, e por isso, minha avó o expulsou de casa.

E o excluiu de nossas vidas.

Por isso, sem a ajuda financeira do meu avô, imagino que a vida tenha ficado muito difícil, e minha mãe teve que começar a trabalhar em casa de família como doméstica aos 9 anos de idade.

Segundo ela, foram tempos muito difíceis, ela sentiu falta de casa, da família, da minha avó, mas teve que suprimir tudo isso para continuar sobrevivendo.

A escola praticamente não teve lugar na vida da minha mãe.

Ela estudou até o quarto ano primário.

Sobre a época em que meu avô estava em casa, ela relatava que ele sentia muitos ciúmes da minha avó, era controlador, e que com os filhos era distante e muito violento, costumava bater nos filhos com chicote.

Há uns anos atrás recebi um texto da filósofa, escritora e ativista norte americana Bell Hooks em que ela afirma que a escravidão afetou a capacidade de amar dos africanos em diáspora.

Ela argumenta que apesar da ansiedade em amar e estabelecer laços familiares com o fim da escravidão, muitos estavam despreparados para amar, e muitos negros estabeleceram relações familiares espelhadas na brutalidade conhecida na época da escravidão.

Tais como relações onde homens espancavam mulheres e adultos batiam nas crianças, como forma de controlar e dominar os mais fracos.

Lembrei-me do chicote do meu avô.

Minha mãe falava sempre das palavras duras da minha avó.

E não nos poupava também dos castigos físicos.

A relação entre minha mãe e minha avó sempre foi tensa.

Segundo minha mãe, minha avó não permitia que suas amigas fossem à sua casa e implicava com tudo o que se relacionava com ela.

Minha mãe não se sentia amada pela minha avó.

Ela decidiu ser a filha que lutava por amor e aprovação de seus pais.

Minha mãe tinha um relacionamento bonito com a minha avó paterna, que era a sua sogra.

Elas pareciam mãe e filha e tinham uma ligação muito especial.

Hoje eu entendo que minha mãe poderia estar representando uma filha perdida da minha avó, um bebê abortado, por exemplo.

O que ela recebia da minha avó Margarida, era o que ela em parte buscava em sua mãe.

Meu pai é o terceiro filho nascido dos meus avós Antônio e Margarida, o primeiro homem.

Meus avós tiveram 10 filhos nascidos.

Minha avó sempre foi uma pessoa doente, foi desenganada pelos médicos aos 25 anos, cardíaca.

Um doce de pessoa, mas uma mãe que não estava muito disponível dada sua enfermidade, aos seus muitos filhos e à luta pela sobrevivência.

A infância do meu pai foi muito pobre.

Meu avô era assalariado, minha avó lavadeira, e muitas bocas para sustentar. Minha tia Jurema, a mais velha, ajudou a criar seus irmãos, como se fossem seus filhos.

Colocava-os para escola, vigiava-os, teve um papel muito importante na educação de todos.

Meus avós também se casaram porque minha avó engravidou do meu avô. Grávida a minha tia Jurema, a mais velha, ela se converteu ao cristianismo.

Meu avô foi logo depois.

E criaram os filhos em meio a fé e a falta de recursos.

Houve um filho deles que nasceu, mas morreu aos 10 meses de idade, por problemas respiratórios, segundo relato do meu pai.

Minha tia Jurema dizia que meu pai, era uma criança que gostava de aprontar, de fugir da escola para brincar.

Mas na vida dele, a escola teve lugar, pois, concluiu o segundo grau.

Meu pai foi aquela criança que decidiu ocultar seus desejos e necessidades para sobreviver, decidiu se tornar invisível.

Meu avô, seu pai, também tinha amantes, mesmo sendo um líder respeitado em sua igreja.

Minha avó suportava tudo em silêncio, como uma boa mulher cristã deveria fazer. Hoje eu olho para os meus avós paternos e não entendo porque se casaram, não enxergo um homem e uma mulher ali.

Tenho a impressão de que a minha avó deixou um grande amor para trás.

Minha avó era negra e meu avô branco, eu sinto que ela sofreu discriminação por parte da família do meu avô.

 Ao contrário da minha mãe que teve que lidar com pais separados, meu pai sempre os teve junto de si, o que não significa que meus avós se amavam, ou que tinham um relacionamento feliz.

No que diz respeito às histórias da minha família, a religião e a condição financeira falavam bem mais alto que o amor, quando se tratava de manter uma relação.

Estamos falando de três mulheres negras, minhas avós e minha mãe, que constitui a classe mais vulnerável economicamente neste país.

Eu também sou uma mulher negra, e me vejo numa condição de lealdade a estas mulheres.

Seus corpos não tinham espaço para amar, apenas para sobreviver.

Foi assim que elas aprenderam a se relacionar com seus homens e com seus filhos.

Eu aprendi a me relacionar com elas desta mesma forma, e me desafio a descobrir em meu corpo, um lugar para o amor, para a alegria, para a celebração do encontro.

Ainda sinto medo de amar, medo da entrega.

As constelações familiares, por meio da filosofia de Bert Hellinger possibilitam que eu e outras pessoas possamos perceber um outro modo de pertencer que não seja por meio da dor, do sofrimento e da infelicidade.

Eu persigo este outro modo de pertencer.

Nesta semana completei 18 anos de casamento com Carlos Henrique.

Sem dúvida, minha relação com ele é marcada por estas histórias.

Venho de uma linhagem de profundo desrespeito aos homens.

Minha mãe foi impedida por minha avó, a sua mãe, de amar o seu próprio pai, e sem perceber faz isso comigo, com minhas irmãs, com meu irmão.

Não quero impedir meu filho de amar o seu pai, não sou melhor que a minha mãe, apenas quero curar esta ferida em meu coração.

Meu marido, como todos os seres humanos é imperfeito, mas é um bom homem. Carinhoso, generoso, gentil, e hoje vejo quantas vezes eu o tratei grosseiramente, ou acreditei que ele era inferior a mim, que ele era menor do que eu, quantas vezes eu o maltratei com a minha postura, quantas vezes em sabotei e me impedi de viver momentos felizes, agradáveis e relaxantes com ele, num movimento de lealdade às minhas avós, tias, e a minha mãe.

Se há uma verdade que precisa ser integrada em meu sistema é o apreço implica reconhecer que o outro tem o mesmo valor, embora diferente.

Sinto que tenho que dizer aqui em meu coração:

-Querida mamãe, não há mal nenhum em ser feliz com meu marido, não há mal nenhum em amar e ter prazer com um homem bom.

Há uma verdade expressa pela Olinda neste módulo que está muito clara para mim:

-Quem não é reconciliado com seus pais, não consegue ter um relacionamento conjugal feliz.

Fazendo uma referência ao  conto das moedas do constelador espanhol Joan Garriga, se não tomamos as moedas de nossos pais, não as encontraremos em lugar nenhum: nem no parceiro, nem nos filhos, muito menos em netos, não as encontraremos em lugar nenhum fora dos pais.

Hoje sinto e compreendo a importância do retorno à infância para poder curar meus relacionamentos atuais.

Ainda que ao olhar para a infância tenha que lidar com muitas dores, com medos, inseguranças, fantasmas, privações, para perdas, para separações, mortes, para aquelas situações que parecem que vão nos esmagar e nos matar.

Devo me lembrar, com a ajuda do meu próprio corpo que a morte é uma outra face da vida, que o vale da sombra da morte é passageiro, que a transformação da lagarta (pesada e repugnante) revela uma linda criatura leve e voadora.

Não há como arrumar a casa, colocar a vida em ordem, sem voltar à infância, que é o lugar, o tempo quando fazemos nossos pactos de lealdade com as histórias de nosso sistema.

Uma postura de vida que tenho aprendido aos pouquinhos a abandonar é a arrogância.

Não cabem aqui os motivos que me levaram a ser arrogante, me cabe aqui expressar que minha arrogância tem origem em uma desordem sistêmica.

Eu olhava meus pais do alto e os julgava imaturos, não acreditava que eram grandes, potentes, fortes o suficiente para resolver as suas vidas.

O arrogante tem a ilusão de que é forte e poderoso, mas na verdade, perde a força para lidar com sua própria vida e solucionar seus próprios problemas.

O que houve entre e com eles não me compete.

Quem sou eu?

Este foi o primeiro passo, reconhecer que estava fora do lugar.

Por muito tempo estive fora do lugar, minha identidade, meu senso de eu foi forjado a partir desta ideia de incompetência, de impotência e insuficiência dos meus pais.

Por isso, reconhecer minha pequenez e praticar a humildade tem sido atitudes diárias.

Tenho me dado conta também que nem só de dor e sofrimento se constituiu a minha infância, me aproximar dela, pode me colocar em contato com a alegria, com a leveza, com a curiosidade, com o prazer que tanto me faltam no dia a dia.

Eu sinto que existem em meu sistema, muitas lágrimas que não puderam ser vertidas, não puderam ser derramadas.

Quando criança minha mãe não suportava meu choro, nem o das minhas irmãs. “Engole o choro” era uma expressão muito comum na minha casa.

Eu me lembro exatamente de um dia, quando eu e minha irmã Catarina, eu não tinha mais de 6 e ela não mais de 4, tínhamos bonecos de plástico baratos, na época chamavam para pedro.

Então, brincando no quintal, abrimos duas covas, enterramos os bonecos e choramos sobre eles.

Até hoje, quase 40 anos depois, minha irmã e eu nos lembramos desse dia.

Nesta brincadeira aparentemente boba, estávamos quem sabe, liberando um choro transgeracional.

Algo que por meio de nós pedia para ser visto e expresso.

Há quem acredite que a infância passa, mas ela continua viva em nós, por isso, Olinda Guedes citando Erickson diz que sempre há tempo para se ter uma infância feliz.

Como criança não pude criar ou determinar as condições as quais vivi minha infância.

Meus pais eram os grandes, e eu a pequena, mas se eu me reconciliar com eles, dizendo sim para tudo como foi, posso dar a infância que a minha criança precisa e merece.

Naturalmente outra conclusão que se pode tirar é que nossos pais também são bons e que por trás de todas as queixas que talvez tenhamos em relação a eles atua o amor.

Esse amor, porém, não está voltado para nós, e sim para outro lugar, lugar esse para onde olhavam quando eram crianças, para alguém que queriam incluir na família. Se começarmos a dar um lugar dentro de nós a todos esses excluídos, então nós também olhamos com os nossos pais para o lugar onde eles estão amando.

Assim tornamo-nos livres e os nossos pais também.

De repente experimentamo-nos numa situação completamente diferente e aprendemos o que significa o verdadeiro amor.( Hellinger, Histórias de amor, página 67).

Hoje me dou conta que meus pais também olhavam para alguém, amavam esta pessoa secretamente enquanto crianças, e talvez os amem até hoje, estes excluídos, isto justifica o fato de estarem indisponíveis para viver um relacionamento de qualidade entre eles, e um relacionamento de qualidade conosco, seus filhos.

Do mesmo modo que meus avós, seus pais, também não estiveram disponíveis para eles porque em seus corações também olhavam para outros lugares. Quando vemos a realidade tal como ela é, não cabe mais espaço para julgamento.

Os meus pais são certos para mim.

Algumas crianças imaginam como os pais deveriam ser.

Constroem uma imagem ideal deles.

Quando percebem que os pais não são como desejam, talvez se zanguem e digam:

-Estes não são os pais certos para mim.

Nunca existirão pais certos para nós além daqueles que temos.

Se uma criança dessas, porém, disser internamente ao pai e à mãe:

-Eu te amo e amo aquilo que nos conduz, ela poderá abrir-se para os pais da maneira como eles são e pode abrir-se para a própria alma e destino, assim como são.

Pode separar-se dos seus pais e ainda assim permanecerá ligada a eles num nível profundo”. (Histórias de Amor, página.24).

Termino por aqui, dizendo aos meus pais e a meus quatro avós, que agora eu sei que fizeram o melhor que podiam, eu agradeço muito porque a vida que chegou até a mim, eu sou a pequena, a que chegou por último, vocês são os grandes.

E eu agora sigo para a minha vida, colocando-me em meu lugar.

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