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CONSTELAÇÃO PROFISSIONAL

CONSTELAÇÃO PROFISSIONAL
Maithê Luiza Girardello
jul. 3 - 9 min de leitura
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Lembro como se fosse hoje o quanto eu amava o primeiro trabalho que eu tive. Minha avó paterna sempre, desde que eu me lembre, vendeu melancias. Eu passava muito tempo com ela, pois meu pai era caminhoneiro, e a minha mãe, professora. Então, durante o dia, quando chegava algum cliente, eu pesava a melancia, calculava o preço e vendia.

Era muito grata por fazer aquilo. Eu me achava responsável e útil em ajudar. Tempos depois, eu comecei a procurar cargas para o meu pai trazer com o caminhão. Essa foi a minha segunda profissão. Eu também adorava trabalhar com isso. Paralelamente, eu cuidava da casa.

Chegava em casa depois da aula e arrumava as camas, organizava a casa, lavava a louça, limpava os tapetes e passava pano no chão. Somente depois de realizar as tarefas é que eu podia brincar. Desde pequena sempre assumi o papel de mãe dos meus pais, queria ser responsável por eles e ajudá-los.

Sempre fracassei. Mal sabia eu que criança não pode ajudar os pais. Agora eu entendo porque eu procuro reconhecimento. Eu não podia brincar sem antes fazer todas as tarefas.

Quando mamãe chegava em casa, eu mal podia falar como tinha sido o meu dia. Ela estava cansada de ouvir crianças e, então, eu tinha que me calar. Além disso, ela sempre encontrava alguma tarefa que eu tinha esquecido. Aquilo me frustrava muito, porque por mais que eu tentasse, sempre era em vão. Com o tempo, comecei a ficar apática e triste.Aos 14 anos comecei a ter crises de depressão e tomei medicamentos até os 23.

Aos 16 anos, fui trabalhar no mercadinho próximo à minha casa. Ajudava na cozinha e depois cuidava do mercado. Eu adorava organizar as prateleiras. Organizar sempre foi algo que eu gostei de fazer.

Depois, eu ajudava a organizar a comida e a louça no frigorífico. Primeiro esquentávamos a comida, depois colocávamos no buffet e, ainda, no final, lavávamos a louça. Eu também gostava de fazer isso. Trabalho doméstico sempre foi gratificante para mim.

Às vezes, a minha dinda me contratava por um certo período de tempo para trabalhar na farmácia dela. Eu atendia os clientes e auxiliava nos afazeres contábeis. Eu até que gostava, mas a cidade que ela morava não era a mesma, era  diferente da que os meus pais moravam, então eu tinha muita saudade de casa.

Aos 18 anos eu lavava cachorro no pet shop de uma amiga minha. Eu também amava. Paralelamente também limpava a casa da dona da agropecuária. Um ano depois, eu trabalhei no centro dos idosos da minha cidade natal.

Esse trabalho eu odiava. Eu precisava fazer tomada de preços para aquisição de mercadorias e a contadora da prefeitura, ao invés de ensinar, xingava e gritava comigo, falando que estava tudo errado. Naquela época me senti humilhada e desvalorizada. Trabalhei apenas duas semanas e me demiti.

Meses depois fui contratada para trabalhar no mercado da cidade. Eu organizava as prateleiras e ajudava no caixa. Gostava do trabalho, mas não estava bem para trabalhar. Estudava à noite e trabalhava de manhã.

Meus pais estavam separados, meu pai havia sido preso, minha mãe com depressão, meu avô materno havia falecido. Estava pesado para mim. Sentia-me impotente e fraca. Trabalhei dois meses e me demiti.

Por um longo período da faculdade fiquei apenas estudando, pois sempre gostei de estudar. Tempos depois recebi uma proposta de emprego da mesma dona da agropecuária para cuidar da filha dela.

Esse trabalho eu adorava, como uma boa canceriana, sempre gostei de trabalhar com crianças, mas, acredito que por influência do meu antigo namorado, acabei pedindo demissão para trabalhar com ele. Contudo, o nosso relacionamento não progrediu.

O meu primeiro trabalho relacionado à minha profissão foi na delegacia de polícia. Eu achava o máximo trabalhar naquele local. Na época estava com problemas alimentares.

Um dia eu menti para o meu chefe que tinha prova dois dias seguidos, só tinha um dia e pedi para ficar em casa estudando. À noite ele me viu andando na rua e descobriu a mentira. No outro dia me demitiu.

Naquela época fiquei muito triste e arrependida, mas com toda a certeza do mundo eu aprendi com aquele erro. O próximo trabalho foi num escritório de advocacia.

No início eu adorava, mas depois trabalhava apenas com consultas processuais, um trabalho maçante e repetitivo. Não era valorizada e não me sentia útil. A chefe era bipolar e eu não me sentia bem vinda no local. Logo comecei a ficar doente, a apresentar vários atestados, e pouco tempo depois fui demitida.

Naquela época foi um trauma bem grande. Tinha acabado de ir morar com o meu atual companheiro. Precisava do dinheiro. Mas, aproximadamente um mês depois eu fui contratada na receita federal. Nossa, eu amava aquele trabalho. Amava o ambiente, amava as pessoas. Não eram apenas colegas de trabalho, eram amigos. Trabalhei lá por 2 anos e meio, até terminar a faculdade.

Depois, antes mesmo de formada, fui trabalhar com uma amiga. Ela tinha um ano de escritório de advocacia e eu estava super empolgada para o trabalho, mas, novamente, fiquei frustrada. Como ela estava ainda no início da carreira, ela não tinha muito serviço, então eu precisava realizar as tarefas relacionadas à empresa do pai dela, uma empresa de turismo.

Ela não aceitava erros, era muito rígida e não tinha um bom relacionamento com o pai dela. O relacionamento deles afetava o relacionamento dela comigo.

Dois meses depois recebi uma nova proposta de emprego em um outro escritório de advocacia e decidi mudar. Nossa, aquele trabalho foi complicado. O chefe, no início, era querido e compreensivo. Eu trabalhei muito, desde o início.

Trabalhar muito nunca foi algo difícil para mim, sempre que eu era contratada, dava o meu melhor, no tempo em que eu estava no serviço. Contudo, ele não era um profissional correto, adulterava provas, perdia prazo, enganava os clientes, até havia sido preso. Além de tudo, me assediou. Trabalhei 14 dias e pedi demissão.

No outro dia, já fui contratada para trabalhar no escritório de uma amiga. Naquele trabalho eu realmente aprendi a trabalhar. Não tinha corpo mole. Era faxineira, cozinheira, secretária, telefonista, banqueira e empresária. Fazia de tudo, até cuidar dos cachorros da rua com ela. Eu amava, tanto ela quanto trabalhar com ela. Mas aquele trabalho não era relacionado com a minha profissão. Além disso, ela não pagava pelo tanto que eu trabalhava.

Na época eu estudava para concursos, estava inscrita em vários, então optei em pedir demissão para me dedicar aos estudos.

Um mês depois de sair veio o coronavírus. Fiquei meses sem serviço e fui contratada para trabalhar no ministério público, onde estou hoje. Continuei estudando e trabalhando. O trabalho não é fácil, tem uma carga emocional muito forte.

Lido com processos relacionados a traficantes, estupradores, homicidas e, o pior, com pais que abandonam e maltratam as crianças. Esse para mim é o pior de todos. Criança sempre foi meu ponto fraco e forte.

Hoje eu sei que adoro trabalhar com assuntos que envolvam crianças e adolescentes. Eu gosto do meu trabalho, mas sei que não é o que eu quero fazer para sempre. Ainda não é o trabalho que eu amo fazer. Durante o tempo em que estou lá, descobri as constelações.

Agora parece que tudo faz sentido. Não consigo explicar, apenas sentir. Meu coração pediu para que eu largasse tudo que eu construi e lutei por muitos anos. Concurso público parece não fazer mais sentido para mim. Descobri que não gosto de trabalhar da mesma forma todos os dias, fazendo sempre a mesma coisa.

Eu gosto de fazer de tudo, sempre gostei.

Gosto de escrever, também gosto de atender pessoas, gosto de ajudar e resolver problemas, gosto de resultados mas também gosto de respeitar o meu corpo quando ele não está 100%.

Nesses trabalhos, precisamos cumprir metas. Trabalhar mesmo quando não estamos bem. Mas a realidade é que a vida não é linear, não estamos com gás total todos os dias, de segunda a sexta. Foi então que eu percebi que eu não me encaixo em nada. Tentar caber dentro de caixas me sufoca.

Eu sou autêntica, eu gosto de liberdade, eu gosto de trabalhar em casa, descalça, no meu horário. Tem dias que eu gosto de trabalhar super cedo. Outros dias nem tanto. Gosto de rotina, mas amo uma mudança.

Com as constelações, com a terapia, entendi que eu preciso criar a minha profissão. Eu sou um passarinho que ama liberdade, escolher a segurança de um concurso público vai me sufocar. Então decidi ir e estou indo.

Amo as constelações sistêmicas, amo o assunto, amo estudar sobre isso e nunca estou satisfeita. Sinto que estou indo para o caminho certo.

Agora eu entendo porque eu nunca consegui ficar muito tempo em um trabalho, eu não os estava escolhendo por mim.

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