[ editar artigo]

Dor x sofrimento: O inevitável e o opcional

Dor x sofrimento: O inevitável e o opcional

Eu ouvi muitas vezes a frase "a dor é inevitável, mas o sofrimento é opcional", antes de viver isso na prática. Pois o processo terapêutico a que me submeto há 2 anos e meio me fez compreender que isso é real. Faço uma terapia que é específica para o tratamento do TEPT* (Transtorno de Estresse Pós- Traumático), chamada Experiência Somática ou SE.

Esse processo consiste em voltar à memória traumática para que o corpo consiga perceber que o estado emocional, mental e físico adotado por ele e relacionado àquela memória não é mais necessário. Bom, é importante entender que estou explicando do meu jeito, o processo é bem maior que isso. Mas enfim, o que interessa aqui é compreender que quando se tem um transtorno que interfere no Sistema Nervoso é preciso trabalhar por meio do corpo, tanto a estrutura física, quanto a emocional e a mental. Isso trata da relação do Sistema Nervoso com o cérebro trino (neocórtex, límbico e reptiliano).

E foi por isso que pude compreender e me livrar do sofrimento. Explico, ficou claro para mim que o sofrimento vinha das histórias que eu havia criado ao redor de cada fato causador de um trauma, e as expectativas frustradas envolvidas nisso. 

Por exemplo, um fato é que durante o meu período gestacional, o excesso de estresse sofrido pela minha mãe, causou um forte desconforto químico para meu organismo, e foi uma dura experiência voltar a essas memórias, uma dor muito profunda. Porém, aliada a essas sensações havia a crença no desafeto e na rejeição por parte dela como uma realidade. A dor era real, causada pela sensação de estar mergulhada em um "ácido" (criado quimicamente pelo estresse dela) e que poderia ter causado a minha morte, mas as memórias de sofrimento eram criadas para tentar explicar  e justificar essa dor (a mente faz isso, gente!!!).

Com o passar do tempo, o processo da SE foi afrouxando o congelamento muscular, emocional e, principalmente, mental, que é a parte mais afetada, uma vez que emoções e pensamentos são praticamente "desligados" quando se está em estado de alerta permanente. Esclarecendo: para quem não conhece o TEPT, esse transtorno é causado por trauma de choque, quando existe o risco de morte e o corpo entra permanentemente em estado de alerta. O alarme natural (de luta e fuga) literalmente quebra, e não desliga mais.

Então, o que aprendi com isso foi perceber que as dores causadas pelas memórias são emocionais e reais, a dor existe mesmo, e que ficar remoendo essas histórias, acreditando que as situações causadoras dos traumas eram criadas de forma proposital ou sinal evidente de rejeição e desamor, quando na verdade eram apenas (no meu caso) prolongamentos do próprio sofrimento de minha mãe, era o meu verdadeiro sofrimento.

Eu não tinha controle sobre os padrões mentais e emocionais, porque o estado traumático mantinha a mente e as emoções presas às memórias musculares (louco isso, né?).

Com a saída do processo de congelamento muscular (que o TEPT causa), eu fui conseguindo modificar esses padrões e reconhecer que histórias eram apenas histórias e eu já não precisava sofrer por elas, ainda que os fatos ocorridos trouxessem memórias muito dolorosas e de muito medo. 

Hoje, na minha vida em geral, consigo perceber claramente que a dor existe, e em alguns casos, continuará existindo, mas já não existem tantas histórias, tantos julgamentos ou motivos para alimentar o sofrimento.

Que fique claro, eu não deixei de sentir dor, mas agora consigo conviver com ela apenas o necessário para compreender que ela é um alerta para algo a que devo dar atenção. Não que seja legal sentir dor, continua não sendo, mas o alívio em levar uma vida onde se pode escolher alimentar ou não histórias desnecessárias é uma grande benção.

 

* Nesse artigo, falo um pouco mais sobre o que é o TEPT: https://sabersistemico.com.br/manage.app#!/content/articles/5dbb01871291581450256268

Saber Sistêmico - Comunidade da Constelação Familiar Sistêmica
Simone Belkis
Simone Belkis Seguir

Simone Belkis se formou em Letras na UFPR. É uma estudiosa do esoterismo e cantante. Seu amor maior são os livros. Escrever é sua forma de criar o famoso mundo melhor, e sua praia é contar suas próprias descobertas para inspirar pessoas.

Ler conteúdo completo
Indicados para você