[ editar artigo]

Nossa Ressurreição

Nossa Ressurreição

Talvez o grande e mais importante passo que podemos dar em direção a encontrarmos o nosso propósito de vida (e realizá-lo!) seja o reconhecimento de que nossos pais não puderam nos dar, - principalmente em termos de afetividade - tudo o que precisávamos quando éramos crianças. Muitos pais - a grande maioria - não puderam. Não porque eles não nos quisessem ou não nos amassem. Não puderam simplesmente porque não tiveram essa experiência através da relação com seus próprios pais, que não tiveram com seus próprios pais e por aí vai.

Só podemos dar ao outro o que temos. Para ter, precisamos passar pela experiência do receber sem condições, de sermos atendidos nas nossas necessidades básicas de pele, colo, calor, olhar de mãe. Se não tivemos essa experiência em sua plenitude, colocamos para funcionar as nossas estratégias de sobrevivência e nos tornamos uma outra coisa - muitas vezes muito distante do nosso eu essencial - para agradar uma instância superior da qual dependemos, enquanto crianças, para nos mantermos vivos e que, carentes, buscamos agradar, vivendo o amor como algo condicionado a um comportamento, a um personagem que precisamos nos tornar.

A criança faz de tudo para sentir-se amada, inclusive usar uma armadura, ou dissolver-se, ou dissociar-se do seu próprio corpo, diante da dificuldade de compreender a falta e expressar a dor que sente. Essas crianças crescem, e o que acontece com elas? Elas se tornam nós. E quando tentamos tocar a nossa vida para frente, nos esbarramos nas consequências desse afastamento do nosso eu essencial, parte do plano que nos manteria vivos durante a nossa infância. Nos sentimos à deriva e mais uma vez apelamos para a máscara: a ilusão é que, com ela, garantimos esse amor incondicional nos grupos aos quais pertencemos; sim, um dia essa criança sai para o mundo e leva a mesma máscara. Perdemos de vista, no mar revolto, quem nós realmente somos nesse percurso. Tudo pelo amor, tudo para fazer parte. Se foi assim com os nossos pais, esse é o modelo que seguimos naturalmente.

Essa máscara apoia-se em uma ilusão, em um ideal, na falsa ideia de que precisamos ser diferentes do que somos para sermos amados. A dificuldade dos nossos pais em se fundir emocionalmente conosco, de forma incondicional, apagou em muitos de nós a possibilidade de viver essa entrega, a entrega da completa confiança no amor e na sua incondicionalidade. E nos tornamos guerreiros, bravos competidores, todos, de alguma maneira, ainda em busca desse amor. Nas batalhas elegemos inimigos e fechamos os olhos para o que acontece no nosso grupo, o que acontece em nós mesmos e não largamos a máscara que nos garante o pertencimento e o amor das pessoas, mesmo que ela nos traga consequências existenciais sérias. E assim nos distanciamos mais e mais de nós mesmos, porque somos uma experiência que inclui tudo e todos, não apenas a parte que elegemos para mostrar e que nos garante o amor das pessoas. Por isso, adoecemos, vivemos estressados, angustiados, medicados ao extremo, pois é doloroso iluminar a máscara que criamos na ilusão de que, assim, poderíamos ser amados.

Qual seria uma proposta de ação diante desse árido cenário? Em primeiro lugar, empreender a viagem de volta, reconhecer a falta, senti-la, nomeá-la. Perceber, talvez, de onde ela vem e qual foi sua utilidade. Certamente, olhando para a história da nossa família, nós não somos os primeiros a utilizá-las; essa falta vem de longe e dando-nos conta disso, talvez possamos ser gratos a ela: se são estratégias de sobrevivência, certamente fizeram seu papel, pois sobrevivemos.

A gratidão, então, abre espaço para a inclusão, que significa ver, reconhecer, dar um lugar. E tudo que tem um lugar pode acalmar-se, respirar, ceder. Aos poucos, as velhas estratégias passam a não fazer mais sentido, e o capitão real, esse “eu essencial” que tivemos de colocar para dormir lá na nossa infância, finalmente pode assumir o comando. Ele nos devolve o acesso à realidade e a toda sua abundância. Saímos do modo sobrevivência e, por isso, nossa percepção se amplia, pois de repente não há mais tanto a fazer, nos sentimos amados e calmos e os inimigos se foram. Nos abrimos para parcerias, para novidades, para pensamentos diferentes dos nossos, e ficamos mais ricos, mais prósperos, mais felizes.
É como se fosse uma forma de ressurreição. Uma boa páscoa a todos! <3

Leo Costa - Instituto Alegria

Para saber mais: todos os livros de Laura Gutman.
 

Saber Sistêmico - Comunidade da Constelação Familiar Sistêmica
Leo Costa
Leo Costa Seguir

Educador há 25 anos! Cria de professora, olha no que deu. Terapeuta e Educador Sistêmico, sendo o que faz, fazendo o que é.

Ler conteúdo completo
Indicados para você