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O bordado no veludo vermelho

O bordado no veludo vermelho

Algum tempo li a seguinte frase: “Quando uma mulher decide curar-se, ela se transforma numa obra de amor e compaixão, já que não se torna saudável somente para si própria,mas também a toda sua linhagem.” Bert Hellinger

Fui imediatamente impactada pela lembrança do meu caminho de cura.

Quando soube que estava grávida lembro que desejei fortemente que fosse um menino. E assim foi. Fui entendendo essa preferência “inconsciente” nos anos de faculdade e na caminhada em terapia pessoal. Descobri o quanto ser mãe de menina era algo muito complicado e impossível para mim. Minha “menina” interior ainda precisava crescer, amadurecer e fazer acertos com a mãe. Que potência existe nesses laços entre mulheres, que força tem o Feminino! Para acessar e integrar essas  partes ocultas precisei entender os laços com minha própria mãe, os sentimentos ambivalentes, as minhas exigências egoístas. Entender esse poderoso vínculo para delimitar as histórias: minha e dela. Aceitar sua humanidade com tudo que isso implica, sem a necessidade de ter uma “mãe no altar”, perfeita e muito menos sagrada. Mas sim a mãe que ela pode ser. Assim, me liberto, corto amarras e amadureço. Posso então usar meu potencial criativo, minha capacidade de produzir, de gerar e nutrir, de fazer arte. Ficamos ambas livres, mães e filhas. E libertamos também os nossos filhos.

Mobilizada por essas reflexões busco na memória a história de um vestido.

O bordado no veludo vermelho

Aquele era um dos primeiros bordados que a mãe se aventurava a fazer.

Estudou com dedicação as artes de corte, costura e bordados.

Bordados de diversas linhas e texturas, de muitos pontos e cores.

Mas aquele bordado tinha um gosto especial. Era o primeiro ano de sua filha. A filha que a tornara mãe.

O tecido escolhido foi o veludo para aquecer a menina naquela estação de frio.

A cor, o vermelho! Porque era um tom que ficava muito bem na bebê de pele muito clara e finos cachinhos cor de mel. Combinaria muito bem com sapatinhos de verniz e meias brancas.

E o bordado? Minúsculas e delicadas florzinhas com pétalas de fitas feitas uma a uma.

Os dedos ágeis, leves e precisos da mãe enrolavam os pedaços de fita num palito de fósforo e como mágica criava pequenas flores.

No bordar das pétalas depositava suas alegrias e sonhos. Nos delicados ramos, traçava um caminho de cuidados e proteção. Nas cores variadas, de suaves nuances desejos de uma vida feliz e sem problemas.

Entre afazeres da casa, cuidados com a filha, medos nunca ditos, lágrimas contidas preocupações, noites insones, colo, cansaço e amor, ela tecia.

Cortava, unia, bordava e dava forma. Um pequeno vestido de veludo vermelho com delicadas flores.

Sua obra de arte!

O trabalho dedicado de suas mãos!

Uma preciosa dádiva para celebrar aquela data tão especial.

Todos adoraram o vestido. Todos elogiaram.

A mãe nunca mais parou de costurar e bordar. Chegou ás altas costuras, aos sofisticados vestidos de noivas, aos elaborados bordados com rendas e cristais.

Também teve outros filhos que, de igual modo, tiveram seus presentes... Lindos enxovais confeccionados com peças exclusivas.

Cresciam os filhos em meio a véus, sedas, revistas de moda, gente entrando e saindo, carretéis, carretilhas e aquele mantra do motor da máquina de costura.

Inúmeras vezes o vestido de veludo vermelho era apresentado, como um cartão de visitas. Um troféu, sua obra prima.

Sempre admirado.

Aos olhos da filha apenas uma coisa antiga que a mãe devia descartar.

Mudaram a casa, o bairro, os móveis. O tempo, a compreensão, os afetos.

Vieram genros, noras e netos. Casamentos, divórcios, nascimentos e morte.

Poucas vezes a filha, de fato, olhara o vestido. A mãe já havia feito tantas coisas incríveis que aquele pedaço de veludo parecia sem sentido. Tantos trabalhos elegantes, suntuosos e ela sempre apresentava o vestido.

Justo o seu vestido? Justo o carinho da mãe?

O amor da mãe!

Porque não mostrava as outras peças feitas para os outros filhos?

Roupinhas foram doadas, perdidas, esquecidas. Mas, como uma lembrança teimosa ele sobreviveu. Sempre apresentado do mesmo modo, como um poema que a filha insistia em não ouvir:

“Esse foi o primeiro vestidinho que fiz para minha filha. Para o aniversário de um ano.”

O vento trouxe nuvens assustadoras, dias de dor e angústia.

 A chuva lavou a vida com lágrimas e aprendizado.

O tempo trouxe a compreensão.

Da filha para a mãe. Da mãe para a avó.

Da mãe para a filha, da avó para a mãe.

E o vestido finalmente encontrou seu lugar. Não mais para vestir a criança exigente .

Mas sim, no coração da mulher que amadureceu.

Da mulher que agora, também é mãe e avó.

Gratidão , querida mãe pelo seu amor!

Gratidão por sua sabedoria em resistir ao desprezo!

Sim, agora eu sei!

Sim, agora entendo!

O vestido vermelho é apenas um símbolo.

O símbolo do seu amor que agora posso enxergar, receber e compartilhar.

Mas essa história não acaba aqui.

A mãe teve grande recompensa. Bordou vestidinho para a neta e agora está ás voltas em bordar o vestido de um ano da bisneta.

Minha neta!

Dessa vez um tecido leve porque será verão, talvez de cor vinho... ou será melhor o laranja? Nada de rosa porque é comum demais. E que modelo... e que bordado... talvez florzinhas...

 

Valéria Diniz

 

 

 

 

 

 

 

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