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"O primeiro filho é muito corajoso"

Uma vez uma amiga me disse isso e eu concordei na hora imaginando que havia compreendido tudo que essa frase significava dentro dos desafios de uma mãe de primeira viagem. É o cobaia para a amamentação, trocar fralda, experimentar diversos métodos para fazer dormir, arrotar, ninar, introduzir o alimento, trocar, dar banho, abrir espaço na casa para as coisas de crianças e ser o motivo das novas discussões e decisões do casal.

Mas ontem eu tive uma compreensão muito mais profunda sobre essa coragem.

Quando me tornei mãe comecei a ler e procurar novos conceitos, métodos e teorias sobre o desenvolvimento infantil, formas de educação e conteúdos que pudessem me apoiar nessa nova jornada. Tive uma educação bastante rígida e sei que necessária para a minha geração. Mas penso que hoje esses “serezinhos” são outros e pedem outras formas de lidarmos e de nos reinventarmos como “condutores” desse processo.

Bom, nessas buscas percebi que eu tinha uma grande oportunidade de desenvolvimento pessoal e que o Joaquim seria um “campo de experimentação” desses novos conceitos e comportamentos. (Já começa aí a sua coragem). E o primeiro novo conceito que estou trabalhando dentro de mim é que se eu quero que meu filho aprenda a lidar com o nervosismo dele e não saia gritando, chorando, brigando, apertando, batendo ou sendo “grosso” com as pessoas eu também não posso fazer isso, PRINCIPALMENTE COM ELE. Bom, ontem eu não consegui ser esse exemplo.

Depois de 2 dias dormindo na casa da avó, tendo as coisas na hora que quer, no colo, sendo trocado de roupa, dado banho, só comidinhas “preferidas”, desenho na televisão, sem rotina e tudo que sabemos que é  super compreensível acontecer na casa da avó (e que, vale ressaltar, é maravilhoso para o desenvolvimento da criança ter esses momentos na casa da avó), o Joaquim volta pra casa num domingo à noite choramingando por tudo e dizendo “não” para todos meus pedidos de fazer o que precisa ser feito na rotina da noite. Depois de vários “não queros” com voz de choro e corpo arrastado, eu abaixei na altura dele segurando para ele olhar para mim, cheia de nervosismo nos olhos e falei com a voz bem firme, alta e grossa: “NÃO É CHORANDO. NÃO É CHORANDO. CONVERSA COMIGO DIREITO.”  

Ele arregalou os olhos muito assustado e foi para o quarto bem quietinho. Da cozinha eu ouvia ele chorar e a Martina dizia apontando para o corredor: “AIM, AIM” – é o jeitinho que ela fala Joaquim rs.  E na minha cabeça vinham milhares de justificativas e pensamentos me dizendo que eu estava certa, que tudo tem limite, que ele precisa aprender e que isso ou aquilo. Mas o meu coração já estava tomado de tristeza pelo jeito que falei e pelo que causou no Joaquim. E depois do nervosismo passar.... vem a ponderação.

Eu sou a adulta. Eu sou o exemplo. Podia ser dito a mesma coisa, mas de outro jeito.  Ok, cessou um comportamento no agora, mas o que ele registrou como um comportamento viável? O que estou ensinando para ele a longo prazo? Que adulto ele está aprendendo a ser?

Por isso, ontem ficou ainda mais claro para mim a coragem do primeiro filho. Sei que vamos errar com todos eles (no caso queremos ter 3), mas com o primeiro tudo isso é muito intenso. É um caminho novo, cheio de descobertas, tentativas e acima de tudo, expectativas. Quando leio sobre esse conceitos e novas formas de educação, acho lindo e incrível e a expectativa vai lá em cima, de que nunca mais vou gritar, nunca mais vou brigar, nunca mais deixarei minhas “tendências violentas” escaparem e que ele aprenderá de forma fluida e nunca mais fará birras, ou se comportará mal. Mas o primeiro filho nos mostra que não é assim. Que será uma busca diária, que temos que nos dar essa permissão de errar e acertar, e deles também errarem e acertarem. Mesmo fazendo tudo “direitinho”, eles são seres humanos e vão fazer muitas coisas “erradas”, ou melhor, c"oisas de criança" e que agora é hora de fazer para podermos ter a oportunidade de ensinar novas alternativas e caminhos.

Penso que com a Martina, minha expectativa já está um pouco mais realista e assim cobro menos dela nas fases que o Joaquim já passou. E assim seguimos.

Depois que me acalmei, fui até o quarto dele, dei um abraço apertado e pedi desculpas pelo jeito com que falei com ele, mas que eu não tinha sabido lidar com meu nervosismo. E olha que coisa mais linda, ele me abraçou e falou: “tudo bem mamãe, eu também não queria fazer o que eu fiz, desculpe também”.   

Pronto. Tudo é aprendizado, para mim e para ele.

Obrigada, filho por ter a coragem de vir primeiro e me ajudar nesse processo de desenvolvimento. Seguimos juntos. Um dia de cada vez.  

Saber Sistêmico - Comunidade da Constelação Familiar Sistêmica
Alcione Andrade
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Mãe e Coach de performance e carreira, unindo as duas coisas para processos de autoconhecimento e escolhas mais conscientes e realizadoras.

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