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OLHAR PARA A ALMA: OLHAR PARA A CRIANÇA (resenha)

OLHAR PARA A ALMA: OLHAR PARA A CRIANÇA (resenha)

HELLINGER, Bert. Olhando para a alma das crianças. Belo Horizonte: Atman, 2015.

A humanidade sempre contou com pessoas iluminadas que, no seu tempo e espaço, contribuíram significativamente para a evolução espiritual e intelectual, no sentido da compreensão da vida com tudo o que ela traz. O mundo, no tempo atual, usufrui do legado que recebeu da presença iluminada desse grande homem – psicólogo, teólogo, filósofo, enfim, cientista estudioso da alma humana – que dedicou sua vida a ajudar pessoas na superação do sofrimento e da dor, para o alcance da alegria de viver. Bert Hellinger escreveu inúmeras obras que explicam o amor, o sofrimento humano ou a vida, e indicam caminhos de superação, a partir do seu estudo e trabalho em prol da cura e da felicidade de legiões de pessoas.

Meu olhar se volta agora para esta linda obra que ajuda a ver melhor não só a minha criança interior, como a ver todas as crianças – as de hoje, que se relacionam com os adultos e as de outrora, que se escondem ou se revelam nos adultos.

O livro conta histórias reais, “retiradas da vida em sua totalidade” (p. 2). Mostra como as crianças podem descobrir em suas almas o que as torna felizes, assim como acontece com seus pais. Ele explica como a leitura das histórias de vida pode levar a entender tudo da forma como foi, compreender a própria alma e encontrar uma saída para si, quando se tem uma dor a resolver.

Muitas crianças levam uma vida de opressão, dependendo do ambiente em que vivem, do destino a que são submetidas, e até perdem a infância feliz ou nem mesmo podem ser crianças, tal é a situação que enfrentam, muitas vezes longe dos pais ou na presença de pais disfuncionais. Hellinguer demonstrou que isso leva a emoções como tristeza, desespero e raiva em relação aos pais, o que as impede de vê-los como são: simplesmente os pais certos, os únicos possíveis para que a vida lhes fosse transmitida e para que elas existam e sejam quem são.

Essa leitura apaixonante levou-me a pensar que quando levamos as crianças (ou a nossa criança interior) a olhar para a origem da vida, do Grande Amor de onde ela veio, através das gerações anteriores, a visão se amplia a partir do coração, e lhes é possível sentir que estão ligadas a algo muito maior, para além dos pais. Então é possível obter uma força especial e desenvolver o gosto pela vida, porque tudo ganha novo sentido.

As histórias contadas no livro levam a perceber que quando alguém tem um destino mais pesado, com uma carga maior de sofrimento, há por trás disso uma força muito maior, o que indica que esse destino é mais forte do que seria um outro, para manter a vida. Então, é possível sentir que a vida está certa e é boa, assim como é. Olhando dessa forma, começa a fluir um sentimento de gratidão.

O autor conta como trabalhou para curar as crianças, mobilizando forças que provinham dos próprios pais, do seu destino e da sua origem, para com essas forças conseguirem comandar suas próprias vidas.

Algo em que não se poderia acreditar, a não ser porque Hellinger demonstrou em seus trabalhos, é que pode acontecer que a raiva contra um perpetrador ou um assassino, por exemplo, é um sentimento que faz sofrer justamente por amor. Há um amor não reconhecido ou não garantido, que faz surgir a raiva, então ela é, nesse caso, uma expressão do amor, e pode ser também a expressão do amor interrompido em seu vínculo. Isso trazido à luz através das Constelações Familiares, permite reunir forças mesmo que lentamente para algo maior.

Pode-se dizer que olhar para a alma da criança (da vítima e do agressor), ajuda a ver para além daquilo que aparece objetivamente.

Todas as histórias trazidas à tona por Hellinger, através do seu trabalho terapêutico, mostradas nessa magnífica obra, levam a compreender o que ele afirma: “Somente quando temos todos no nosso campo de visão e quando todos recebem um lugar em nosso coração, conseguimos restabelecer a paz. Não antes disso.” (p. 11).

Olhar para a alma das crianças significa, também, partir do pressuposto de que o amor e o respeito entre os pais são pressupostos de vida para os filhos, mesmo quando esses pais já não estão juntos. É o que ficou demonstrado no trabalho relatado às páginas 18 e 19 do livro. O filho considerado pela mãe como o mais problemático na relação familiar, sucumbia ao sentimento de raiva da mãe pelo pai biológico que não estava mais presente. O que a alma do filho necessitava era que o pai tivesse um lugar respeitoso no oração da sua mãe. Outras histórias contadas pelo autor também demonstraram isso.

A meditação também é proposta como forma de olhar para a alma, como ensina o autor ao se referir a um exercício para curar, por exemplo, ressentimento e culpa nos relacionamentos. Ensina a perceber que somos todos iguais em relação a algo maior ou em relação ao que Deus dá. Ele se refere inclusive a que todos sabemos do que disse Jesus: o Pai que está no Céu faz chover sobre justos e injustos (p. 20).

Em outros momentos, Bert Hellinger retoma esse ensinamento de que todos somos iguais perante algo maior e sobre como a distinção entre bom e mau depende do ponto de vista e da consciência de cada um. Quando nos tornamos pequenos e agimos como as crianças, com a consciência limpa, podemos esquecer a diferença entre bom e mau, e então podemos instituir a paz e compreender os outros, principalmente o comportamento das crianças. Mais do que perdoar, colocamo-nos como iguais diante do que é maior.

Há um grande ensinamento sobre esse “olhar para a alma das crianças” quanto à postura e movimento do constelador no processo de ajuda. Em suma, poder-se-ia dizer que racionalizações e julgamentos atrapalham o olhar e impedem movimentos de cura. Analogicamente, olhar como crianças olham, pode ajudar mais.

Sobre adoção, ao ler esse livro é possível entender que quando os pais adotivos olham para a alma da criança e a querem realmente ajudar, o resultado pode ser bom. Entretanto, quando os pais querem adotar só por que querem ter um filho e não conseguem - nesse caso estão olhando mais para si - a adoção pode não ser boa. As adoções são uma oportunidade de vida feliz para as crianças quando os pais adotivos desejam fazer algo por elas, por causa delas. Assim sendo, os pais adotivos substituem os pais biológicos e devem ter respeito por eles. Somente ao respeitá-los, podem respeitar a criança (p. 45).

Parece que para olhar para a alma, é preciso olhar para os pais, para o relacionamento deles e com eles... e para isso tudo, nos pais deles... e os pais sempre são maiores.

Há muito, muito mais! Vale a pena ler!

Mas ainda quero considerar algo: se somos todos iguais perante o que é maior, se o sol e a chuva são para bons e maus, justos e injustos, o que o autor diz sobre como ficamos diante de Deus? “Ficamos simplesmente presentes diante desse Espírito Eterno, sem movimento próprio. Simplesmente presentes da forma que somos. É essa a realização para todos” (p. 237). 

Sobre o que essa leitura respeitou em  mim: Acredito que Deus é maior que tudo, que Ele olha para a alma de cada um e de todos, com amor imensurável, um amor tão grande que nos deixa livres para escolher com viver na presença desse Amor. 

Essa é a minha fé.

 

 

Saber Sistêmico - Comunidade da Constelação Familiar Sistêmica
Angela Helena Bona Josefi
Angela Helena Bona Josefi Seguir

Ângela é casada e tem 5 filhos. Tem formação em Constelações Sistêmicas e Organizacionais by Olinda Guedes. É professora, com experiência na Educação Básica e no Ensino Superior. Palestrante e ministrante de cursos na área da Alfabetização.

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