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Terminalidade é o câncer

Terminalidade é o câncer

Me coloquei à disposição em advogar gratuitamente em casos relacionados à saúde (pedidos de remédios, internamento, transferência de hospital, entre outras questões).

Em virtude disso surgiu o caso de um paciente em estado grave e avançado do câncer. 

Do ponto de vista jurídico e humano fiz o que estava ao meu alcance. Contei também com ajuda de amigas, com mais experiência jurídica que a minha.

Conversando com a família do paciente notei que se tratava de uma fase de terminalidade. Ao ouvir o relato da irmã do paciente percebi que haviam características que eu vivenciei no meu tratamento de câncer. Entretanto, no caso dele houve a fala típica da equipe médica que o acompanha que foi: “Não tem mais nada que a gente possa fazer. Agora vamos cuidar da dor dele, para que sofra o menos possível.” 

Ela (irmã do paciente) relatou sintomas de muita dor, chegando ser insuportável. Falou também sobre a vontade dele em morrer e pedir que isso aconteça, por não suportar mais tamanho sofrimento, disse que ele não entende porque não morre logo e o porque de tanto sofrimento. Por outro lado, ela disse estar tão mal que ela passa semana sem comer, por não suportar mais ver sofrimento do irmão.

Compreendi perfeitamente o que ela expôs, e acabei acessando imediatamente algo que vivi no meu tratamento. Uma fase, em que eu não suportava mais sofrer, sem hipocrisias, eu conversava com a Déa e com Deus e dizia: Não quero mais sofrer, se for para sofrer assim, chega! É melhor morrer! Não fazia mais sentido ficar como estava. Embora eu quisesse ver meu filho crescer o sofrimento era tão grande que dava agonia. Um sofrimento que beirava à loucura. E que qualquer palavra que eu usasse para descrever seria incalculável e indescritível. 

Nesse momento, após meu cérebro processar tudo isso, eu disse a ela: 

-Olha, do ponto de vista jurídico eu fiz o que estava ao meu alcance. Mas, agora enquanto paciente eu preciso te dizer algo. Eu passei por momentos assim, de muita angústia, entendo seu seu irmão. Para o paciente, a única coisa que ele quer, nessa fase do tratamento, é não sofrer mais. É bizarro tudo que acontece! Mas, tem momentos que a morte parece ser a melhor saída. Não tenho ideia do sofrimento dele, só ele sabe. Também não tenho ideia do seu sofrimento, porque não vivi isso enquanto família porque eu era a paciente. Eu sinto muito por vocês estarem passando por tudo isso. Realmente é muito triste, tão triste que nem tenho palavras.

Disse à ela que pelo que ela relatava ele estaria em fase terminal, ou seja, no fim da vida.

Eu sinto muito falar disso com você, mas é o que eu percebo. Esse não é um assunto que as pessoas gostam de tratar, mas que é necessário falar. E acredito que vocês devam procurar o hospital de referência para que ele seja acompanhado pelos Cuidados Paliativos.

Expliquei à ela do que se tratava. E disse quais eram os objetivos do acompanhamento (resumi: disse que era para manejar a dor dele, diminuir aquele estado de sofrimento e dor. Falei sobre morrer dignamente sem precisar sofrer tanto). Expliquei que muitos pacientes não morrem de câncer, mas sim da dor causada pelo tratamento.

Onde aprendi isso? Com a vida, com meu tratamento e principalmente com uma aula que tive de Cuidados Paliativos com a Dra. Ursula. 

O tema sempre me chamou atenção, mesmo antes do câncer. Mas durante o tratamento acabamos indo Déa e eu, em uma aula no CRM, que nos ensinou muito. Dali para frente, eu fiquei mais interessada ainda. Porque dizia respeito a mim também!

O tema, é de extrema importância, visto que todos iremos morrer um dia. Tratar dele, não é muito agradável, mas é necessário. Quanto mais podermos falar sobre, menos pesaroso o tema se torna.

Ela me informou que ele havia sido encaminhado para os Cuidados Paliativos. Eu, tive certeza que não estava falando bobagem e que realmente era o que eu estava imaginando. 

Aqui, relato isso para que a gente pare de olhar com julgamento para certas questões. E principalmente de querer julgar a dor do outro. Ela nunca foi e nunca será nossa. Cada um, vive de modo pessoal suas dores, então não vamos palpitar se faz ou não sentido alguém querer morrer estando em estado terminal. Não estou sugerindo eutanásia, mas apenas que respeitemos a condição de sofrimento do outro. Os Cuidados Paliativos ajudam a controlar a dor do paciente em fim de vida, (e não só nesses casos). É importante olhar para isso com amor e acolhimento. Para que haja menos sofrimento nessa fase de terminalidade. 

#cuidadospaliativos

Saber Sistêmico - Comunidade da Constelação Familiar Sistêmica
MILENA PATRICIA DA SILVA
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Sou mãe do pequeno Henrique, escritora professora de Direito Sistêmico, Advogada, pesquisadora, terapeuta, master e coach em PNL, doula, apaixonada pelo cuidar do ser, pelo conhecimento, pelos livros e pela vida e por chá de manjericão.

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