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A SOLUÇÃO PARA TODOS OS PROBLEMAS É O AMOR

A SOLUÇÃO PARA TODOS OS PROBLEMAS É O AMOR

Meus pais se conheceram na época da faculdade. Moravam em cidades diferentes e pegavam o mesmo ônibus para ir a uma terceira cidade, para estudar. O meu pai era veterano e minha mãe era caloura. Logo na primeira vez em que ela entrou no ônibus, ele a percebeu, e disse alguma cantada para mostrar interesse.

Ela percebeu que foi notada, mas como ela mesma costumava dizer, moça séria não dava confiança.

Depois disso, por algum período, meu pai passava a viagem toda conversando com a minha mãe e uma prima, e segundo a minha mãe, era tagarela e muito chato!

Em um episódio onde um amigo em comum teve febre e precisou de ajuda, depois de socorrer o doente, os dois se aproximaram. Meu pai achou que não era um bom partido, e que minha mãe não teria coragem de namorar com ele porque ele não tinha dinheiro nem para um sorvete, minha mãe disse que isso não era o mais importante. Participaram juntos de um retiro de jovens, se encontraram durante uma aula vaga, trocaram elogios e voltaram abraçados no ônibus.

Desde então, nunca mais se separaram verdadeiramente.

Quando criança, achava que o relacionamento dos meus pais era daqueles perfeitos, de conto de fadas onde tudo é lindo, maravilhoso, feliz e planejado. Muita coisa se escondia das crianças na intenção de protege-las. À medida que fui crescendo, fui percebendo coisas não tão lindas, obstáculos como brigas, discussões, dificuldade financeira, doença, divergência de opiniões...

Por muitas vezes fiquei assustada com os gritos, me entristeci, me chateei. Outras vezes continuei brincando como se aquilo não me pertencesse. Talvez em alguma parte do subconsciente eu tenha chegado a achar que eles não se amavam mais. Mas no aparente do aparente, mesmo com as brigas e os desentendimentos, sempre tive orgulho do casal, do relacionamento resiliente, de fazer parte da porcentagem de crianças que os pais vivem juntos.

Percebi que muitos problemas se resolviam “de um dia para o outro”, na privacidade do quarto. E de repente o amor voltava, e lá estávamos nós, um feliz casal com seus 5 filhos empilhados em cima da cama, rindo e comemorando alguma coisa especial. Até hoje apenas imagino o que acontecia nesses momentos secretos, se eram conversas, momentos de intimidade, não sei. Mas o quarto dos pais era como um santuário, onde tudo que acontecia era sagrado, e não se entrava sem pedir licença.

Depois de algum tempo, não me recordo em que idade, fui saber pela minha mãe que aquela “brigarada” na nossa frente era uma forma de mostrar aos filhos o que era um relacionamento de casal de verdade.

Os pais dela, meus avós maternos, nunca brigavam na frente dos filhos, e por conta disso, ela cresceu tendo a ideia de que relacionamentos conjugais eram sempre perfeitos e tranquilos, e que amar significava nunca se desentender, que casal feliz é aquele que nunca fica triste ou chateado. Fantasia essa que obviamente caiu por terra quando ela se casou e percebeu que duas pessoas diferentes, vindas de famílias diferentes, com percepções diferentes sobre a vida, às vezes vão pensar diferente e, não tão raramente, discordar e discutir de maneira mais enérgica.

Ela não queria que nós tivéssemos a mesma “decepção e choque de realidade” que ela teve, então decidiu que era mais saudável mostrar que nem tudo são flores.

E talvez de certa forma tenha sido mesmo.

A infância dos meus pais foi bastante parecida. Os dois tem bastante irmãos, passaram por escassez e necessidades, andavam longas distâncias para ir à escola, não tinham luxo. Refrigerante só em ocasiões especiais, material de escola no saco de arroz. Dificuldades comuns a maioria das famílias pobres da época. Cresceram aprendendo a valorizar muito bem o dinheiro, mas com a crença de que “coisa de rico não é pro teu bico”.

A lealdade, a escassez maior ainda que seus antepassados tiveram que suportar.

Meu pai desde muito cedo aprendeu a trabalhar, ajudava meu avô na lida com os bichos, consertando cerca, trabalhando na roça... era o mais velho dos irmãos homens, tinha que ajudar o pai para aprender a ter responsabilidade. A minha mãe também amadureceu muito rápido, tinha que ajudar a cuidar dos irmãos mais novos. Muitas vezes apanhou porque um mais novo estava sujo, ou tinha quebrado algo, ou se machucou em alguma brincadeira de criança.

São raras as lembranças de afeto e carinho que ela tem da sua mãe, minha avó.  

Meus avós maternos, Aurélio e Noêmia, não se casaram com seus grandes amores da juventude. Os dois eram apaixonados por outras pessoas, mas eram relacionamentos vistos como impossíveis e reprovados pelas famílias, devido às diferenças morais e sociais. A minha avó era apaixonada por um rapaz de família rica, que fez faculdade, nunca trabalhou na roça, não sabia fazer serviço pesado, no linguajar da época: um almofadinhas. Havia então uma preocupação da família se ele teria preservado os mesmos valores, se iria gostar de trabalhar ou preferia vida fácil.

Ao mesmo tempo meu avô também teve suas paixões reprimidas, namorou uma moça da qual gostava muito, porém a família dela não queria que ela se casasse com um italiano.

Teve uma segunda paixão, e desta vez a sua própria família não aprovou, por se tratar de uma pessoa de cor, uma “negrinha” como eles diziam. De certa forma sou grata por esses desencontros, que ocasionaram o encontro entre os dois, para que hoje eu possa estar aqui.

Os dois se conheceram em um coral de igreja, chamado Regina Coeli, em União da Vitória. O meu avô ficou encantado pela voz da minha avó. Conformados com seus amores reprimidos, se uniram, talvez por pressão das famílias, talvez por esperança em escrever uma nova história, não se sabe.

A minha avó Noêmia sempre exigia mais de meu avô Aurélio, queria que ele tivesse mais atitude, que fosse mais resoluto, mais homem. Ela reclamava que ele não tomava a rédea das situações, ao mesmo tempo em que se antecipava e não permitia que ele fizesse isso. O casamento deles foi construído com respeito e carinho, mas os dois continuaram sempre em busca do grande amor, cada um à sua maneira: meu avô se apaixonou pela esposa e cresceu o seu amor por ela à medida que o tempo passou, faleceu apaixonado pela sua Emi, pela sua menina, formas carinhosas que ele a chamava.

Enquanto minha avó foi muito grata a esse amor e sentiu muito a perda do homem que a amou mesmo quando ela não retribuiu, ainda assim ela segue até hoje buscando o amor, se apaixonando pelo moço da feira, pelo fisioterapeuta, pelas representações do amor jovem que ela foi impedida de viver.

Meus bisavós maternos, pelo lado da minha avó, também tiveram um relacionamento disfuncional. Pelo pouco que sei, o meu bisavô Arnoldo teve outros relacionamentos fora do casamento e minha bisavó Helena, quando descobriu, o colocou para dormir em outro quarto para o resto da vida, mas permaneceram casados, sendo ela impedida também de viver um grande amor.

Era o masculino presente fisicamente dentro de casa, mas ausente emocionalmente. Além disso, meu bisavô também foi um pai disfuncional, violento e abusivo, assim como o pai dele, e provavelmente os outros pais que vieram antes. E a minha avó reproduziu esse comportamento na criação dos próprios filhos.

No aparente do aparente, na minha ancestralidade materna, há muito tempo parece que os homens não são suficientes. Há uma busca constante pelo grande amor, pelo masculino, pela reconciliação com o pai.

Quanto aos meus avós paternos, Pedro e Amélia, segundo o meu avô, as coisas aconteceram espontaneamente. Ele era professor dela, e se interessou quando ela ainda era sua aluna, mas era mal visto um professor paquerar uma aluna, então ele esperou, guardou para ele o interesse até que percebeu que era mútuo.

Os dois então passaram a se paquerar e o interesse cresceu, se tornou amor, e resultou em um casamento que dura 60 anos, por enquanto. Hoje em dia a minha avó é parcialmente dependente, tem Alzheimer e sofre de depressão, agravada há aproximadamente 10 anos. Nos seus dias não tão bons, ela depende do meu avô para quase tudo. E ele, pacientemente, cuida dela sem se queixar.

Nas palavras dele, está cumprindo o compromisso que assumiu há 60 anos, na saúde e na doença.

Olhando para esses relacionamentos do meu sistema, vejo muitas lealdades em meu próprio casamento, e outras em minha infância. Tenho muitas vezes a sensação de que estou em guerra com o masculino, ou de que preciso resolver os problemas que, na minha visão, meu marido fica deixando para depois. Também percebo que não só no relacionamento atual como nos anteriores, muitas situações fazem eu me sentir insatisfeita com o outro, e sair em busca de “novos amores”, que se manifestam através de amizades, de comida, de paixões materiais ou religiosas ou intelectuais, e assim por diante. No aparente do aparente, é um casamento normal.

Afinal, todo casal briga.

Todos os homens são iguais. Não se deve esperar isso ou aquilo do casamento ou do marido. E vamos empurrando as coisas para debaixo do tapete, até que se torna insustentável e começa uma guerra pelo papel que ficou no chão e não foi para o lixo, ou pela louça que não se lava sozinha, ou outro motivo que o sistema usa para dar um sinal de alerta.

Percebo que muitos emaranhamentos já estão se resolvendo, enquanto outros ainda estão vindo à tona.

E que quanto mais conheço as histórias de relacionamento dos meus ancestrais, mais faço as pazes com meu próprio relacionamento e com escolhas que fiz no passado.

A vida é uma constelação, estamos o tempo todo vivendo soluções e emaranhamentos, e olhar para as nossas sombras com amor é muito mais curativo do que podemos sequer imaginar.

Constelações Sistêmicas

Saber Sistêmico - Comunidade da Constelação Familiar Sistêmica
Cristiana Josefi
Cristiana Josefi Seguir

Sou fisioterapeuta, apaixonada pelas terapias integrativas e sistêmicas. Sou filha da Ângela e do Ivanês e mãe da Maria Clara, por enquanto.

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