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AS RELAÇÕES NO MEU SISTEMA FAMILIAR

AS RELAÇÕES NO MEU SISTEMA FAMILIAR

Venho de uma família humilde, provavelmente de lugares distantes e inóspitos. A sensação é de que meus ancestrais faziam parte das camadas mais baixas da sociedade, sem nenhuma pompa ou circunstância, sem o menor interesse e muito menos paciência para banalidades e superficialidades impostas pela sociedade.

Vivemos do trabalho duro e honesto do povo interiorano do Brasil e com muito sacrifício fomos melhorando a qualidade de vida do sistema familiar e hoje gozamos de certa fartura e conforto.

Meu pai veio do interior de Goiás e minha mãe do interior de Minas Gerais, naquela época em que criança e mulher não se expressavam. Os homens de famílias menos abastadas aceitavam todo o tipo de serviço que aparecia para garantir o alimento à mesa, sem luxo algum.

Do lado paterno, meu avô José Borges era comerciante de venda e faleceu quando o meu pai, filho mais velho de quatro irmãos, tinha quatro anos de idade. Só de lembrar tento imaginar a dor dessa criança que tem seu destino totalmente alterado pela falta do pai.

Minha avó, que teve seu pai assassinado, estava agora viúva e com quatro filhos pequenos sem a menor condição de se cuidar quanto mais para dar amor a estas crianças. Neste ambiente meu pai cresceu sem qualquer necessidade material ou emocional atendida.

Tudo era inacessível, a dor e o vazio o acompanham até hoje e refletem a dor desta criança perdida ainda aos 76 anos de idade.

Diante disso, convivi com um pai extraordinário, que lutou para nos dar tudo que lhe faltou, porém isolado num mundo particular onde não se ouviam histórias da sua infância e das suas alegrias.

Tudo que sei é que apanhou absurdamente a ponto de enterrar o chicote que sua mãe usava para lhe bater, que morou na casa de um tio ou de outro e acabou interno em um colégio para estudar.

Minha mãe, assim como o meu pai, é a primeira filha e nasceu dotada de extrema beleza física o que favoreceu o acesso a ambientes que economicamente seria inviável. Meu avô era borracheiro e minha avó lavadeira.

O dinheiro mal dava para a comida e eles precisavam mudar constantemente por não pagarem o aluguel.

Neste contexto, não percebo e nem tenho notícia de grandes alegrias na infância uma vez que não tinham acesso nem ao básico para viver. Tudo era muito difícil até para os abastados, imagina então para que o dinheiro era ausente.

As dores e os segredos que acompanharam a infância dos meus pais, traduzem a solidão e o apego aos filhos e netos cheios de medo de que algo ruim possa nos acontecer.

Diante deste cenário desprovido de estrutura material e afetiva, com suas dores, marcas e cicatrizes, meus pais casaram-se em 1967. Ele com 22 anos e ela com 16. Tudo muito rápido e de forma singela, com cada familiar ajudando como pode na cerimônia, impulsionando o surgimento da minha tão querida família de origem.

Da infância dos meus pais para a minha infância foi uma verdadeira revolução. Quando eu nasci meus pais já possuíam casa própria e nunca me faltou alimento, roupas, escola, esporte, brincadeiras e tudo mais. Eles sempre se esforçaram para que a nossa vida fosse diferente da deles e conseguiram.

Mas a orfandade do meu sistema familiar sempre me afetou emocionalmente. Por muitas vezes me senti uma estranha no ninho, que um amor maior me faltava, um vazio de alma.

Consegui muitas vitórias nesta trajetória. Minha inteligência sempre foi orgulho para a minha família e com isso eu sentia que valia alguma coisa.

Sempre me senti muito acolhida pelos meus irmãos e isso me alegrou bastante. Sempre fazíamos tudo juntos e nos apoiávamos uns nos outros. Meus pais nem sempre conseguiram transpor suas vontades para dar além do material.

Pelo que sei, os relacionamentos amorosos eram disfuncionais com meu avô paterno morrendo precocemente de sífilis e deixando quatro filhos órfãos e meu avô materno abandonando minha avó com filhos pequenos para viver com outra mulher.

Neste contexto, meus pais têm 54 anos de casados com algumas dinâmicas transferenciais ao longo do caminho onde meu pai teve relacionamento extraconjugal quando mais novo.

Apesar de tudo isso, eu e meus irmãos vivemos relacionamentos estáveis e de muito respeito com nossas famílias progredindo e melhorando nossa história.

Hoje eu acolho tudo que foi como foi, vítimas e agressores e sou grata pela família abençoada que Deus me deu. Meus pais são os pais perfeitos para mim e me dou conta de que tudo isso foi o que possibilitou a vida chegar até mim.

Eu tomo a vida com tudo que ela me traz e faço algo de bom com tudo isso!

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Constelações Sistêmicas

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