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CARTA À MINHA CRIANÇA INTERIOR

CARTA À MINHA CRIANÇA INTERIOR

Amada criança, a sua vida não foi fácil,

Desde muito cedo com as responsabilidades de cuidar dos irmãos e ajudar na lida da casa.

Tenho muito carinho e admiração por voce, pois com tantos afazeres quase não tinha tempo para ser criança. Então você esperava ansiosamente aquele fim de semana, que lhe era concedido uma vez por mês, quando você podia ir para a casa da nossa tia Gracira, que morava num casarão junto com nosso tio Júlio, esposa e filhos. 

Era uma festa, éramos ao todo 16 crianças, e brincávamos de muitas coisas, pega-pega, esconde-esconde, passar o anel, carrinho de lomba, pular corda e tudo que a imaginação permitisse.

Esse era meu momento predileto da vida. Esses momentos raros passavam tão depressa, mas eram um refrigério para a nossa alma. Meus pais eram muito severos, minha mãe uma pessoa amargurada, sempre reclamando de tudo, e me batia o tempo todo por qualquer motivo.

Meu pai, além de tudo, ainda abusava sexualmente de mim, com o consentimento subliminar da minha mãe. O abuso por parte do meu pai durou até meus 9 anos, quando comecei a trabalhar aos finais de semana na casa da minha professora de matemática, para cuidar dos filhos dela, o Pedro e a Ana.

Minha mãe não gostava que eu estudasse, dizia que era perda de tempo, pois eu não seria doutora mesmo. Então, por causa disso eu tinha que acordar às 4 horas da manhã, para deixar minhas tarefas caseiras prontas e ter permissão para ir a aula.

Quando tinha prova eu estudava escondido, com uma vela acesa embaixo das cobertas, e pedia para minha irmã cuidar  e me avisar se ouvisse a mãe vindo.

Eu tinha 12 anos quando coloquei a minha primeira roupa nova da loja, lembro até hoje do cheirinho dela, era uma blusa laranja de manga comprida. Lembro que naquela noite dormi abraçada nela. 

Com 13 anos já trabalhava de carteira assinada e nunca mais parei. Com muito esforço (pois tinha que me equilibrar entre o trabalho e as tarefas de casa) eu consegui concluir o ensino fundamental e o médio.

A minha adolescência passou muito rápido, saia bem pouco, pois meus pais não permitiam; uma vez fugi para olhar um desfile de escola de samba com minha tia e primos, meu pai descobriu e brigou com minha tia, além de me dar uma grande surra. 

Quando eu tinha 23 anos meu pai morreu, senti um grande alívio; mas, não por muito tempo, pois vieram mais responsabilidades. Daí, virei mãe da minha mãe e dos meus irmãos. Quando completei 28 anos, minha mãe morreu, então assumi meus 3 irmãos, (de 10 anos, 12, e 15 ).

Hoje com 57 anos, estou empenhada na minha cura, foram muitos traumas e cicatrizes, mas tenho certeza que vamos conseguir; acolho essa criança linda que existe em mim, com muito carinho. Ela recebe presentes, doces e muitos mimos, brincamos, passeamos.

Pois, tudo já passou e voce querida Nice, pode ter tudo que foi negado a voce, carinho colo e aconchego; como diz a nossa mestra, sempre é tempo de viver uma infância feliz.

Gratidão amada criança por ter ficado comigo sempre, pois mesmo por uma fresta da parede, eu cuidava de voce.

 

 

 

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