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CARTA AOS MEUS ANTEPASSADOS

CARTA AOS MEUS ANTEPASSADOS

Amada madrinha Iracy:

É com muito amor que te escrevo esta carta.

Você foi e é uma das pessoas mais importantes da minha vida. Lembro do carinho e cuidado com que você cuidava de mim e do meu irmão para os meus pais irem trabalhar. Você sempre foi muito generosa. Por onde passava deixava seus vestígios de amor. Um exemplo de alguém totalmente admirável.

Embora não tivesse muitas condições financeiras, sua casa estava sempre cheia. Todos os parentes se encontravam lá. Aquelas rodas de gente conversando, tomando chimarrão e comendo pipoca, sempre foram a visão da felicidade para mim. E você era o centro. Colocava as crianças para ajudar a enrolar "cuecas viradas", fazia bacias cheias de pipocas, sempre uma doce e outra salgada.

Que delícia que era! Era tudo muito bom! Obrigada por ter permitido vivermos essas experiências. 

E você era trabalhadora, ia no Paraguai buscar mercadoras para revender e ajudar no orçamento da casa. Também andava quadras e mais quadras para comprar produtos nos mercados que ofereciam as melhores ofertas. Sem contar, nas visitas que fazia às pessoas internadas em hospitais. Meu Deus, dinda, o quanto eu te admirava! Você também me levava na igreja e eu adorava, pois aprendia muito com a sua fé.

Mas, nem tudo eram flores. Nunca aceitei o jeito que o meu padrinho te tratava. Sempre cheio de grosserias e tentando te humilhar. mas você nunca revidava. Seus quatro filhos também não eram fáceis. Principalmente a minha prima mais nova, como era rebelde. E eu sentia o seu sofrimento, dinda. Vou te contar um segredo: o meu sonho naquela época era crescer, casar e te levar para morar comigo. Na minha cabeça infantil, dessa forma resolveria os seus problemas.

Tinha isso como uma missão de vida.

A vida nos traz algumas situações desestruturantes. A sua morte foi uma delas. Nunca imaginei que isso pudesse te acontecer de forma tão brusca. Você estava preparando um chimarrão na escola, onde recém tinha iniciado a trabalhar, quando o aneurisma fulminante te levou embora. Que tristeza! Não pude nem me despedir e te dizer o quanto te amava. Todos ficaram atordoados. Foi a primeira morte em nossa família. Você morreu antes de seus pais. Minha prima (sua filha mais velha) xingou Deus durante seu velório.

Restou um vazio. Nossa família, dinda, nunca mais se reuniu. Começaram as brigas, as quais perduram até hoje.

Todos se afastaram uns dos outros.

Quanto a mim, não pude cumprir minha missão. Mas, te honrei, de forma inconsciente, através do meu casamento. O amor em desordem me levou a um casamento com uma pessoa igual ao meu dindo. Acabei trazendo para a minha vida, dor e sofrimento parecidos com os seus, dinda. E só me dei conta disso agora, através das constelações.     

No entanto, nem tudo é sofrimento, herdei também alguns de seus dons. Trabalho com costura, faço bonecas de pano. E isso é algo que muitas mulheres de nossa família amam fazer. As máquinas de costura sempre acompanharam nossas ancestrais.

Que lindo isso! 

Dinda, meu casamento terminou há 4 anos. Hoje, consigo ver que tive a oportunidade de fazer o que você e muitas de nossas ancestrais não puderam por conta de viverem em outros contextos sócio culturais, históricos e emocionais.

Posso sentir a força silenciosa de cada uma delas. Por isso, hoje, eu tomo a vida ao preço que tudo isso custou. Consigo entender, através do conhecimento sistêmico, que os homens não deram afeto, pois só deram o que receberam e que tudo está certo como está.

Agora vejo todos vocês com amor! 

Constelações Sistêmicas

Saber Sistêmico - Comunidade da Constelação Familiar Sistêmica
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