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CARTA AOS ANTEPASSADOS

CARTA AOS ANTEPASSADOS

Meu nome é Sarah Borges, segunda filha de Manassés Borges e Maria Helena Borges, nascida em Goiânia, Goiás, aos 27 dias do mês de abril de 1969.

Quero lhes contar um pouco da continuação da nossa história até aqui e de como eu vivo a partir do legado de nosso Sistema Familiar. Para dizer a verdade, conheço bem pouco sobre meus avós maternos e paternos e das pessoas que vieram anteriormente.

Não cheguei a conhecer meu avô paterno e minha avó materna pois ambos faleceram antes do meu nascimento.

Após entrar em contato com o mundo das constelações e compreender que tudo o que somos está conectado e entrelaçado com todos os que vieram antes, percebo que mesmo sem conhecer bem meus antepassados, suas histórias causam interferência direta na minha vida.

Sinto que muita força de vitória trouxe a vida até mim e reconheço que sinto esta força nas minhas atitudes e no meu modo de ser, mas, atrelado a isso, sinto igualmente dores profundas relacionadas a fatos ocorridos em gerações passadas e que ainda hoje reverberam no meu inconsciente, consciente e no meu corpo físico.

Para exemplificar minhas considerações, constato muitos sentimentos sem conexão com o meu contexto de vida atual, mas que insistem em permanecer dentro de mim. Considero que as tragédias da minha família causam em mim um sentimento de profunda dor e tristeza que me aprisionam como forma de ser fiel e solidária àqueles que tiveram um destino tão difícil.

Minha mãe é a filha mais velha de 8 (oito) irmãos nascidos e não sei quantos não nascidos da minha avó materna. Meu avô abandonou minha avó para viver com outra mulher, mas os dois continuaram a se encontrar e a ter filhos. A filha caçula da mina avó materna nasceu entre mim e meu irmão mais velho e minha avó morreu em consequência deste parto, enquanto minha mãe ainda estava grávida de mim e minha tia recém nascida foi dada pra adoção.

Hoje, aos 52 (cinquenta e dois) anos, observo que passei uma vida lutando contra a obesidade e a compulsão alimentar devido à história de escassez de alimento que tanto a minha avó quanto os meus tios maternos foram submetidos, além dos meu pai e tios paternos e que em honra a esta história eu me alimento excessivamente na ilusão de que assim estaria salvando-os desta triste situação.

Durante a minha adolescência consegui me manter em um peso aceitável as custas de anfetaminas e anorexígenos e após me casar e ter filhos voltei a engordar até me submeter à cirurgia bariátrica.

Ainda luto contra a balança e a compulsão alimentar e me vem também a percepção de me manter congelada no peso da gravidez na tentativa de salvar minha vó da morte no parto.

Compreendo que carrego comigo muita energia de concretização e que conquistei muitas vitórias pessoais, profissionais e nos relacionamentos. Sou formada em dois cursos superiores com várias especializações, tenho dois empregos e uma família construída com muito amor e dedicação. Gozamos de uma situação financeira estável e buscamos melhorar a cada dia.

Nem tudo são lágrimas, graças a Deus!

Passando para o meu lado paterno, sinto grande dor pela orfandade do meu pai. Meu avô paterno faleceu quando meu pai tinha apenas 4 (quatro) anos de idade e minha avó ficou viúva com quatro filhos pequenos de idade 4,3,2 e1. Ela casou-se novamente vez e teve mais 2 (dois) filhos. Muito cedo ficou viúva pela segunda vez e nunca mais se casou. Muito trabalhadora e honesta, para falar a verdade rígida ao extremo, lutou incansavelmente para criar seis filhos com dignidade e honra. Entretanto, nunca percebi afinidade dela com meu pai que para mim cresceu sem amor de pai e de mãe.

Um fato que me deixa muito pesarosa é que dos quatro filhos do primeiro casamento da minha avó, dois suicidaram e isso foi uma marca terrível para toda família. Minha família tem vários problemas de comunicação e muitos segredos pois nada é falado, pouco se reúnem, irmãos vivem distantes e seguem seus destinos isoladamente.

No meu íntimo, eu sinto falta de muitos excluídos do meu sistema. Pessoas de quem não se fala e nem são lembradas, vítimas e agressores, filhos não nascidos ou mesmo com vítimas de tragédias e assassinatos. É uma saudade de quem nunca se conheceu.

Agora eu sei, agora eu sinto que a tristeza, a angustia, a saudade desproporcional de algo que eu nem sei o que é, faz parte de algo vivido por vocês, em outro momento do nosso sistema, em gerações passadas.

Acredito no poder da cura transgeracional, na cura pela terapia das constelações. Agora, fortalecida com este conhecimento, consigo olhar para tudo isso, reviver essas dores e colocar tudo no lugar. Agora eu encontrei um caminho para uma vida mais saudável.

E agradeço tudo que vocês fizeram sem julgamento. Agora eu entendo que a vida chegou até mim com todas as oportunidades de escolhas e todos os recursos necessários para que eu possa seguir de forma leve e feliz. Gratidão pela vida! Eu tomo a vida pelo preço que ela custou a vocês! Gratidão por dizerem sim para mim! Vou fazer algo de bom com ela e levar nosso sistema para um lugar melhor e mais saudável.

Meu propósito é reconstruir nossa história perdida e apagada das gerações atuais e honrar vocês, meus queridos antepassados. Compreendo que o fluxo da vida está à nossa frente, no futuro. Mas entendo que só vou seguir em paz se eu alinhar nossa história. Quero construir um futuro melhor para os meus filhos e as próximas gerações.

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Constelações Sistêmicas

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