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CARTA AOS ANTEPASSADOS

CARTA AOS ANTEPASSADOS

 

Neste momento me sinto tomada por um sentimento que desconheço. Talvez eu conheça, mas nunca tive a oportunidade de traduzir em palavras. Resolvi fazer um curso sem expectativas e, de repente, me vejo tomada por uma sensação diferente. A expectativa de viver, de conhecer, de saber, de exercitar o que aprendo.

Fui incumbida de uma tarefa nunca pensada antes por mim. Algo tão simples, mas tão complexo. Devo escrever uma carta aos meus antepassados. Sinto um vazio, sinto a falta, sinto o nada. Um universo tão infinito com vastas experiências esperando por nós, e eu aqui, ao som de uma boa música instrumental que, tenta sem sucesso algum, me encher de alguma inspiração ilusória.

Que inspiração eu busco? Quero ser preenchida de que? Será do amor que tenho questionado se eu sei o que realmente é? Porque se tenho o vazio, não tenho o amor, visto que o amor preenche todos os espaços vazios de uma existência.

Antepassados. Ah, quanta ironia! O que escrever quando sou tomada de tamanho vazio quando penso em vocês?

Nesse momento faço uma pausa para sentir o doce abraço de uma xícara de chá, na temperatura perfeita que me acolhe e me aquece nesse dia frio de outono. Eu busco acolhimento? Sabe, eu gosto do outono, da sua elegância, do toque frio e suave da brisa que bate em meu rosto que se complementa ao brilho do sol, na equação perfeita que enriquece qualquer momento de contemplação.

O que eu contemplo?

O outono e o inverno me deixam muito doente. E tantos problemas respiratórios me fazem questionar, por que tanta doença? Por que veio tudo para mim?

Parada aqui pensando sobre o que escrever, me questionei sobre o vazio, sobre o que contemplo no outono, a respiração que me falta, sobre a tristeza que não sei de onde vem. Às vezes, paro no tempo e contemplo o nada, o vazio.

Me propus a entrar em um estudo que me fez olhar para um lado da minha história que jamais havia olhado: minha ancestralidade.

Ah, antepassados! Sobre vocês, nada, ou quase nada sei. Histórias mal contadas ou totalmente omitidas. Orgulho? Vergonha? Desonra?

Ao fazer uma breve pesquisa, pouco descobri e muito entendi. Minha ancestralidade de fato, é uma incógnita. E falar sobre ela, deixa muitos desconfortáveis. Assim, percebo que meu vazio é ausência de informação. Logo eu, uma eterna estudante, trago um sumário vazio. O amor que busco é simplesmente o pertencer a uma história, qualquer que seja ela.

Engraçado como a escrita me cura. Deveria escrever mais, obtenho insights jamais pensados e, as palavras vão, aos poucos, preenchendo o meu vazio. Sendo assim, posso começar a escrever para “Meus Queridos Antepassados”:

Em um momento de distração, uma forte brisa bateu contra mim, levando meu lenço preferido.

Um lindo lenço de tons lilases com brilho prateado. Meu lenço voou e dançou no movimento da brisa, até cair delicadamente em um gramado verde, fresco, convidativo. Havia uma borboleta amarela. Como eu adoro borboletas amarelas! Na alegria de poder observar seu suave e hipnotizante voo, misturado ao impacto de ver meu lindo lenço ser levado pelo vento eu pude olhar para trás.

Que movimento esse!

Com essa profundidade e complexidade, nunca havia feito nada parecido.

Nesse momento dispus meu lenço no gramado da minha vida e me coloquei a contemplar o nada, o tudo; eu e toda a minha inquieta imensidão. Eu não brotei ali do nada. Eu tenho uma história, formada a partir de várias outras. A partir de agora, eu me abro para o desconhecido do meu emaranhamento, simplesmente porque ele é meu e eu sempre soube que eu teria a nobre missão de ressignificar tudo em amor.

Então vamos por partes. Essa é apenas a primeira carta de muitas que virão, mas é a chave para adentrar na profundidade que é o significado da minha vida.

Dos meus ancestrais paternos, apenas conheci minha vozinha Maria. Mulher muito batalhadora, conhecedora das ervas e da arte da costura. Ficou viúva muito cedo, com 8 filhos para criar no interior de Pernambuco. Sempre cabia mais um agregado em sua casa... deve ter criado outros tantos.

Quanto sofrimento vozinha!

Que vida difícil!

Quanta tristeza vejo em seus olhos!

Quanta luta!

Quanta frustração!

Meu avô João faleceu no auge de sua vida. Dizem que foi infarto e ele foi encontrado no açude. No meu coração essa história não está bem contada, ninguém fala no assunto. Vozinho, eu vejo você! Quanta tristeza em seu coração, quanta pressão, quanto trabalho, quanta dificuldade nessa seca do nordeste!

Claro que o falecimento precoce de meu avô gerou muitos traumas. Meus tios possuem histórico de depressão. Meu pai tinha apenas 5 anos quando ficou órfão de pai.

Mais que isso, sei que 2 ou 3 gerações antes houve uma história ocultada relacionada a sobrenome. Preciso descobrir e será minha partida nessa busca da minha eterna, emocionante e divertida novela.

Queridos ancestrais paternos. Eu vejo todos vocês!!! Eu gosto de estar viva, portanto, agradeço por tudo o que vocês passaram, que me permitiram estar aqui. Amo vocês!!!!

Dos meus antepassados maternos sei menos ainda. Os visitei 2vezes em toda a minha vida. Com 5 e com 15 anos.

Do meu avô Guilherme, vi apenas 1 vez, aos 5 anos, descobri recentemente que ele traiu a minha avó com a cunhada quando ela era hóspede na casa deles por motivos de estudo. Eles mudaram de estado pois ele havia sido ameaçado. Nada mais sei.

Minha vozinha Benilde, que vi 2 vezes, só sei que era considerada uma santa por todos. Ironia da vida ter falecido recentemente com câncer de cólon. Hoje eu sei, que não foi ironia. Teve 13 filhos.

Queridos ancestrais maternos. Eu gosto de estar viva. Antes eu apenas vivia. Olhava para o nada, esperando algo me preencher, permitia que a brisa gelada do outono me tomasse de doenças, que não me deixavam respirar. O sopro da vida não fluía em mim. Era pesado. Hoje eu gosto de viver. Entendi que a contemplação do nada me preenche de tudo. E no momento da minha solitude, os melhores insights e as artes mais belas podem ser criadas por mim. Gratidão por tudo! É por vocês que estou aqui!

Amo vocês!!!

Ao meu pai e à minha mãe, nesse momento eu agradeço. A semente de vocês gerou minha morada nessa vida. Morada esta, negligenciada por mim até o momento. Agora decidi que amo estar viva, amo cada pedacinho de minha morada e me comprometo em cuidar mais de mim.

Sou grata pela história de vocês, por tudo o que passaram. Mas a vocês, a carta é individual. Serão as cenas dos próximos capítulos dessa minha exótica vida!

Gratidão, gratidão, gratidão!

E preenchida de uma emoção diferente, que me permito sentir, abro nesse momento a porta que outrora estivera trancada. É tempo de mudanças. Me abro para elas. Tenho medo. Mas agora sei que meu vazio é preenchido de tudo! De tudo aquilo que eu quiser... e eu só quero uma coisa: pertencer pelo amor!!!

 

Com amor,

Sara Alencar

 

 

Constelações Sistêmicas

Saber Sistêmico - Comunidade da Constelação Familiar Sistêmica
Sara de Andrade Jacó Alencar dos Santos
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