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A mensagem da Sexta-feira Santa

A mensagem da Sexta-feira Santa

HELLINGER:

Sexta-feira Santa. Para os cristãos é um dia especial. E um dia favorável ou um dia funesto?

O que se passou nele? Jesus foi crucificado  um acontecimento corriqueiro em Jerusalém.

De Jesus, tal como realmente foi, pouco sabemos.

Os evangelhos contêm diversos extratos.

Em alguns deles ainda se vislumbra como era Jesus: um homem consciente de seus limites, consciente de sua dependência em relação a Deus, e que por vezes não conseguia o que queria.

Portanto, basicamente, um ser humano como nós. Era assim que ele se via.

O que aconteceu então? Quando pendia na cruz ele clamou em alta voz: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?”

Nisso ele foi totalmente humano: um ser humano que atingiu os seus limites e precisou sentir que

Deus permanece inacessível para nós.

Sua grandeza consistiu em sentir isso e em defrontar-se com isso.

Mas o que foi feito desse Jesus? Para os discípulos que presenciaram isso e ouviram esse grito, a ideia de que Jesus fora abandonado por Deus foi insuportável.

Eles não conseguiram defrontar-se com esse Deus grande, que permanece misterioso.

Por essa razão proclamaram que Jesus ressuscitou, que se assentou à direita de Deus e virá julgar os vivos e os mortos.

O que sucedeu então?

Quase não se falou mais do Jesus real.

De repente ele perdeu a importância.

Paulo raramente o menciona em suas cartas.

Não o considerava importante. No entanto, suas cartas são os escritos mais antigos do Novo Testamento.

Os evangelhos só apareceram bem mais tarde, trinta a cinquenta anos depois. Eles foram escritos a partir da fé na glorificação de Jesus.

Com isso o Jesus real foi relegado a um plano secundário.

Comparado ao Jesus real, do qual ainda sabemos alguma coisa, o Jesus glorificado é, no fundo, um Jesus terrível.

Basta pegar o Apocalipse de João e ler como ele descreve Deus e o Jesus glorificado.

Este chega cavalgando um cavalo branco.

Diante das portas da cidade ele pisa os lugares da cólera de Deus.

Um rio de sangue atinge as rédeas dos cavalos e flui por quilômetros de extensão.

Não é apavorante?

Deus será assim, e Jesus estará sentado à sua direita, onde só se fala de sangue e de punição?

E esse Deus ainda é proclamado como um Deus de amor?

Nesse contexto transparece ainda algo nefasto: o ódio dos cristãos contra os judeus.

No Evangelho de Mateus foi acrescentada uma passagem, aparentemente com uma intenção perversa, onde se diz que todo o povo gritou: Seu sangue caia sobre nós e sobre nossos filhos.

Aqui começou para os judeus seu caminho da cruz entre os cristãos.

Quanta coisa os judeus tiveram de sofrer dos cristãos! O mesmo que Jesus sofreu.

Quando lemos e ouvimos o que foi feito ao povo judeu, vemos que no fundo foi exatamente o mesmo que deve ter sido feito a Jesus.

E os judeus se comportaram do mesmo modo como se conta de Jesus.

Como um cordeiro levado ao matadouro, eles não abriram sua boca.

Foi isso que chamou a atenção no holocausto: centenas de milhares foram simplesmente levados e não se defenderam.

Que imagem nos passam agora os judeus? O judaísmo representa para nós uma imagem especial na alma. Pois o que os cristãos lhes fizeram, a maneira como agiram com eles, corresponde a uma certa imagem interior.

Quem os judeus representam em nossa alma? O homem Jesus, que muitos cristãos já não querem reconhecer.

Pela glorificação cometeu-se contra Jesus uma grande injustiça.

Ele perdeu o direito de aparecer como um ser humano como nós.

É preciso renegá-lo, caso contrário nos defrontaremos com o Deus que o abandonou e que também permanece inacessível para nós.

Por essa razão, combatemos nos judeus o lado sombrio do cristianismo.

O dia de hoje nos oferece, talvez, a possibilidade de refletir como podemos voltar a fazer justiça, tanto ao homem Jesus quanto aos judeus.

Vimos anteriormente, numa constelação, o que acontece quando um assassino olha nos olhos de sua vítima, e como ambos de repente se unem no sofrimento em comum e encontram sua paz na morte.

Nesse particular faço para mim uma imagem.

Sugiro que imaginemos Jesus no reino dos mortos, encontrando-se com Judas, com os sumos sacerdotes que o condenaram, com Pilatos, com aqueles que o pregaram na cruz.

Eles se olham nos olhos, encontram-se mutuamente, como seres humanos, lamentam o que aconteceu e assim encontram a paz.

Com essa imagem em nós, podemos olhar também nos olhos dos judeus, como seres humanos, lamentar junto deles o que foi cometido contra eles, desde a Idade Média, em muitos países cristãos como a Espanha e a Rússia, e principalmente, em tempos mais recentes, na Alemanha.

Então esse dia se tornará um dia de reconciliação e de paz.
Exemplo: “Sou um de vocês” (do mesmo curso).

BENJAMIN- Desde criança sofri muitos acidentes.

Eles sempre me aconteciam quando eu estava no trânsito: andando de bicicleta, dirigindo um automóvel ou cavalgando.

Em várias ocasiões sofri acidentes depois de ter conseguido coisas importantes em minha vida.

Há uma semana saí de carro com meus filhos e de repente percebi que estava dirigindo perigosamente.

HELLINGER: O que aconteceu com sua família de origem?
BENJAMIN: Meu pai e meus quatro avós vieram da Europa e escaparam da morte.

HELLINGER: O que quer dizer com isso?

BENJAMIN: Meus avós paternos escaparam dos campos de concentração na Alemanha, e meu avô materno escapou da Rússia.

Ele fugiu dos pogroms. Toda a sua família foi assassinada.

Minha avó materna fugiu da Áustria. Também a família dela foi ali assassinada.

HELLINGER: Você provém de uma família judia?

BENJAMIN: Sim.

HELLINGER: Está bem. Vamos colocar agora representantes para todos esses mortos.

Quantos são?

BENJAMIN: Muitos, nem sei quantos.

HELLINGER: Vamos escolher seis.

Escolha-os você mesmo.
Benjamin escolhe os representantes e coloca-os lado a lado.

Hellinger pede que ele se poste diante deles.

Benjamin recua alguns passos. Cobre o rosto com as mãos, é dominado pela dor, tenta gritar mas não consegue.

Enquanto isso, Hellinger escolhe seis representantes para os assassinos e os coloca lado a lado, formando um ângulo reto com relação às vítimas.

Benjamin bate os pés no chão e grita com profunda dor.

Depois de algum tempo se ajoelha e golpeia o chão com os punhos.

A seguir deita-se de bruços e grita alto.

Entrementes, olha para as vítimas e para os perpetradores, geme, grita e golpeia o chão com os punhos.

Depois de algum tempo levanta-se e olha para as vítimas.

Uma das vítimas se sacudiu por longo tempo.

Algumas desabaram no chão. Benjamin se acalma.

Aproxima-se das vítimas, em seguida torna a recuar diante delas.

Balança a cabeça, estende a mão para as vítimas e golpeia a própria perna.

Então volta a chorar em voz alta e cobre o rosto com as mãos.

Adianta-se outra vez, ajoelha-se junto das vítimas, que nesse meio tempo jazem todas com olhos fechados, e beija cada uma delas na testa.

Chora alto, levanta-se, afasta-se de novo com altos gritos e junta as mãos na frente do rosto.

Depois de algum tempo, Hellinger o coloca junto dos assassinos e lhe diz que de lá olhe para as vítimas.

Benjamin se acalma, olha para as vítimas e também para os assassinos.

Passa lentamente por eles e torna a voltar. Então se posta diante deles.

HELLINGER para Benjamin: Olhe os assassinos e diga: “Eu sou um de vocês.”

BENJAMIN com voz tranquila: Eu sou um de vocês. Ele confirma com a cabeça.
HELLINGER: Isso mesmo.

Para o grupo, ele está identificado com os perpetradores.
Benjamin confirma com um aceno.

Ele inclina a cabeça enquanto se posta diante dos perpetradores, e chora.
HELLINGER para Benjamin, algum tempo depois olhe para os mortos.

Benjamin se volta para as vítimas e chora. Mas ainda olha para elas.

HELLINGER para Benjamin: Respire tranquilamente.
Hellinger coloca a mão no peito dele.

Benjamin se tranquiliza. HELLINGER: Simplesmente olhe e respire tranquilamente.

Benjamin olha para os mortos.
BENJAMIN para Hellinger: Estou cansado, estou esgotado.
Volta a chorar.

HELLINGER: Sente-se junto dos mortos, simplesmente sente-se.
Benjamin senta-se ao lado dos mortos. Estes continuam deitados, imóveis e com os olhos fechados.

HELLINGER: Não há nada a fazer, morreram todos. Estão todos mortos, mortos há muito tempo.

Benjamin acena e chora. Faz um movimento desamparado com as mãos.

HELLINGER: Agora acolha cada um deles em seu coração.

Não apenas os que estão deitados aí, também os outros de sua família.

Acolha todos e cada um deles em seu coração.
Benjamin coloca uma das mãos no coração, chora e bate de novo no chão.

HELLINGER: Acolha cada um deles em seu coração com amor.

Benjamin se tranquiliza. Aproxima-se de um dos mortos e o acaricia nas costas.

HELLINGER: Isso mesmo, acolha cada um deles em seu coração.

Respirando profundamente. Respire profundamente, com muita tranquilidade.

Benjamin se aproxima dos mortos, acariciando e beijando cada um.

Também se aproxima de um dos assassinos deitado no chão, acaricia-o e beija-o.

Então dá um passo para trás e se inclina, de mãos postas.

Dá mais alguns passos para trás, fazendo-lhes uma reverência a cada passo. Então olha para os perpetradores e faz menção de afastar-se.

HELLINGER: Agora vá também aos perpetradores.

Benjamin se aproxima de um dos perpetradores, acaricia sua face e pousa uma das mãos em seu peito.

O outro toca seu ombro com uma das mãos. Benjamin torna a acariciá-lo no rosto e passa ao próximo. Ele coloca uma das mãos em seu peito.

O outro também o toca no ombro com uma das mãos.

Benjamin o acaricia na face e passa ao seguinte. Pousa uma das mãos em seu ombro e o acaricia.

Em seguida se abraçam. Passa para o seguinte e o acaricia também.

Aproxima-se de um dos assassinos que desabou no chão e que ele já tinha acariciado, beija-o e vai para o último dos perpetradores, que também jaz no chão há muito tempo, com os olhos fechados. Ele o acaricia, beija e abraça. Então se levanta e se afasta.

HELLINGER para Benjamin: Está bem assim?
Benjamin acena que sim, e pousa a cabeça no peito de Hellinger.

Abraçam-se por longo tempo.

Enquanto isso, todos os perpetradores se deitaram e fecharam os olhos.

HELLINGER depois de algum tempo, aos representantes: Isso foi tudo.

Para o grupo, depois de uma pausa Em Parsifal, na última ópera do compositor alemão Richard Wagner, existe um lindo texto e uma maravilhosa melodia.

Seu nome é: O encantamento da Sexta-feira Santa.

Depois de longa viagem sem rumo, Parsifal chega ao Castelo do Graal.

Traz de volta a sagrada lança e admira-se porque tudo está mudado.

As flores têm um brilho diferente, cada coisa tem um fulgor próprio.

Gurnemanz, o velho cavaleiro do Graal lhe diz: “Este é o encantamento da Sexta-feira Santa senhor.

(De um curso em Buenos Aires, 2001)

Livro- Conflito e Paz
Bert Hellinger.

Saber Sistêmico - Comunidade da Constelação Familiar Sistêmica
Débora Carvalho
Débora Carvalho Seguir

Abrace a sua vulnerabilidade e faça dela a sua maior força. É bonito demais sentir.

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