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AS DOENÇAS CONTRAÍDAS PELOS IMIGRANTES DURANTE A TRAVESSIA OCEÂNICA PARA O BRASIL - 2/4

AS DOENÇAS CONTRAÍDAS PELOS IMIGRANTES  DURANTE A TRAVESSIA OCEÂNICA  PARA O BRASIL - 2/4
Márcia Regina Valderamos
mai. 14 - 8 min de leitura
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2ª PARTE:

VIVER A EPIDEMIA DENTRO DE UM NAVIO

“Partiu e uma estranha cantarola subiu aos ares nesse momento tormentoso: Os imigrantes cantavam e batiam palmas, abrindo os grossos chapéus de sol que lhes escondiam os rostos, enquanto o rebocador se ia afastando do Araguaya, arrastando a tosca barcaça em sua esteira caprichosa Os imigrantes cantavam! Sujos, do mais triste aspecto doentio, desgraçados na sua condição miserável, oprimidos a toda sorte – pela fome, pelo aspecto, pela ameaça de doença – mal tratados até pelo céu que, pela manhã, rico de sol, então rasgava as suas nuvens num aguaceiro glacial.

Uma desventura que não se conhece termo de comparação, porque até os cães encontram amigos entre os homens e para o imigrante a bordo, a piedade humana ainda não chegou. O saveiro afrontou as águas do mar e as nuvens, oferecendo a quem fechasse os olhos naquele curioso instante, a ilusão de ouvir alguma festiva serenata, lançada na calma de um mar de rosas, por um bando de felizes da vida! É que a dor também sabe a ironia de cantar risonhamente as suas mágoas infinitas, à maneira da alegria, desafogando os excessivos paroxismos, desatando a aparente tristeza das lágrimas.” Correio da Manhã, 22 de outubro de 1910, p.1.

Será que é possível para nós, que nunca passamos por tal situação, imaginar , termos uma vaga ideia do que era o terror de viver uma epidemia para os passageiros desses navios? Para estes imigrantes que permaneceram durante quase dez dias dentro de um navio com surto de cólera, vendo as pessoas falecerem, acometidas por um mal que, segundo a antropóloga Jane Beltrão, extingue a humanidade e animaliza suas vítimas (2004.)

De acordo com Beltrão, contradizendo o jargão amplamente invocado pelas autoridades e repetido na imprensa; a epidemia de cólera, como tantas outras, nada tinha de democrática, pois selecionava suas vítimas sobretudo entre os mais pobres, que viviam em condições desumanas.

Em outros locais, os ricos, por causa da escassez de água potável naquela época, não ficavam imunes. No caso dos navios de imigrantes, juntavam-se às péssimas acomodações dos vapores, a falta de higiene, a aglomeração de pessoas, os alimentos mal conservados e o total descaso das companhias de navegação com este tipo de passageiro.

Os imigrantes viajavam na 3ª classe, muitos subsidiados por governos sul-americanos, a maior parte deles formada por trabalhadores agrícolas e suas famílias, que vinham em busca de trabalho e de uma vida melhor.

Os sintomas da cólera - diarreia volumosa, que logo se torna aquosa, denominada popularmente como ‘água de arroz’, vômitos, cólicas abdominais e espasmos musculares violentos - causam verdadeiro pânico.

O rosto do paciente fica azulado, a pele murcha, mãos e pés ficam gelados, escurecidos, contraídos e enrugados. Em um dia, perde-se cerca de vinte litros d’água, o que gera desidratação e queda de pressão. A morte se dá em um curto espaço de tempo, às vezes em poucas horas após o aparecimento dos sintomas.

Nos navios, a situação poderia se tornar mais degradante e dolorosa para todos, mas principalmente para familiares, pois obrigatoriamente era necessário jogar o corpo ao mar para impedir o contágio, o que subtraía dessas famílias a passagem por todo o ritual habitual e necessário da morte, como velar o corpo e enterrá-lo de acordo com suas crenças e rituais.

Muitos desses imigrantes, principalmente das aldeias e vilarejos italianos, eram camponeses imersos em suas tradições. Quando chegavam ao Novo Mundo, esses homens da vida rural deparavam-se com algo totalmente diferente, principalmente na seleção de imigrantes no modelo norte-americano: inspeção médica, testes psicológicos, testes de QI, uma outra lógica de se viver e pensar.

A maior parte das pessoas que imigrava para o Brasil vinha acompanhada de toda a família, pois era prerrogativa do sistema de subvenção do governo brasileiro a imigração familiar para colônia ou fazenda. Quando ocorriam fatos como o do Carlo R., navio que teve que voltar ao seu ponto de embarque na Itália por estar infectado por cólera, toda a família poderia sucumbir à doença, ou chegar desfalcada ao seu local de destino.

Sendo a emigração um plano familiar em busca de uma vida melhor, a doença surge como o fim de um sonho, o que tornava os fatos muito mais trágicos para todos, tanto para quem passava pela situação, quanto para quem a assistia de forma impotente dentro do navio.

Segundo Richard Evans (1988:127), a cólera chocou profundamente a sociedade europeia, acostumada a esconder as funções corpóreas da visão pública. Poucas coisas poderiam afrontar mais a moralidade vitoriana do que os sintomas desta doença. A cólera maculou a sensibilidade do século XIX, pois era vista pela perspectiva da desumanização, por causa dos seus sintomas degradantes e morte rápida. “A iminência do falecimento impedia o colérico de se preparar para a fatalidade. Assim, a morte por cólera era revestida por um manto de horror”.

 “A travessia, naquele tempo se viajava que nem animais. Tinha aquele camarote inteiro, a gente dormia. Tinha a cama embaixo e em cima, um calor de noite! Às vezes subia na coisa para poder dormir, porque fazia muito calor. Até que passar o Estreito de Gibraltar, porque paramos, parou em Marselha, parou num porto de, da Espanha também, o navio ia parando em tudo quanto era porto. Quando, no Mediterrâneo ainda, antes de chegar no Estreito de Gibraltar, o mar era uma coisa bárbara, baixava, descia o navio, que nossa senhora! Toda a gente ficava doente de estômago, se vomitava, se fazia... nossa!

Era uma viagem muito ruim! Depois que passamos o Estreito de Gibraltar, paramos um dia inteiro na Dakar, na África; parou lá, o navio carregou carvão, pegou água, pegou tudo aí, para se abastecer, não é? Ficamos um dia inteiro, no é? Aí passou, o mar era calmo, calmo, nunca teve uma onda lá brava, nada, até chegar ao Rio de Janeiro.

Ao Rio de Janeiro chegamos era de noitinha. O Rio era uma coisa maravilhosa, uma coisa linda, linda, o Rio de Janeiro! Nossa! De noite, do porto, chegando lá, uma coisa... a gente nem sabe contar como é que é tão bonita! Aí paramos no Rio de Janeiro, o navio parou quase um dia inteiro, desceram muita gente lá, é... eu desci também... não, não desci. Do navio mesmo joguei uma cestinha, é... comprei banana. Comi uma dúzia de banana de uma vez só! (riso) Achei tão gostosa! Parece que era um tostão, não sei, dava uma dúzia de bananas. Ficou lá. Depois que desceram os passageiros tudo, aí veio para Santos [sic.]”. Entrevista de uma imigrante ao Jornal Gazeta da Tarde.

Muitas histórias de imigrantes contam que os navios não ofereciam compartimentos com os mínimos princípios de higiene. As pessoas ficavam confinadas de forma desconfortável, com uma estrutura de camas umas ao lado das outras e somente um banco central de madeira e uma mesa onde se faziam as refeições.

Nestas condições, sentir-se mal era normal. Os riscos e debilidades tornavam essas viagens suscetíveis a problemas de saúde, embora muitos imigrantes fossem inspecionados por médicos antes de deixarem a Europa ou Ásia, especialmente após uma série de atos que restringiam significativamente a imigração para os EUA após 1891.

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