[ editar artigo]

Carta à minha vovó Ana Rosa Jesuína

Carta à minha vovó Ana Rosa Jesuína

Querida Vovó Ana!

Minha amada Índia bugre do interior de Minas Gerais desse nosso Brasil! Quantas saudades! Ontem a gente pôde se rever em um encontro sagrado, proporcionado pela Mestra amada Olinda Guedes, não é? Vó, a senhora está vendo que turma incrível eu encontrei? Daí do céu dá para ver tudo, né?

A senhora é testemunha da minha busca incansável durante a minha vida, não? Parece que achei!

Penso sempre na senhora, a senhora sabe, mas ontem foi muito forte! Eu te senti, vozinha! Quanto amor! Ontem eu te vi! Pude entender de onde vem a dor e o sofrimento que sempre vi nos teus lindos olhos escuros, no seu sorriso doce, mas tristonho e naqueles seus silêncios! A senhora estava sempre na cozinha, cozinhando ou servindo à mesa. Não me lembro de vê-la em outros cômodos da casa. Só quando a senhora não pôde mais andar e adoeceu.

Como eu faço, parecia que a senhora não podia parar nunca! Tinha que estar assoberbada, tensa, preocupada. Pronta, a postos, porque a qualquer momento poderia acontecer algo desastroso! Eu atestou agindo assim nessa vida!

Quer dizer, estava. Vou começar a mudar isso. Não precisa mais depois da carona que peguei na constelação da minha colega.

Me lembro da sua voz rouca, brigando com meu avô, dando bronca neles por suas atitudes rudes e mesquinhas com a gente (comigo, com meu irmão e minha mãe, quando meu pai, filho dele, não estava). E a senhora tão doce, sem ficar nos beijando, abraçando, mas cozinhando comidas simples, gostosas, doces e fartas! O vô colocava limites, nos humilhava, xingava, destratava e dizia que éramos “mortos de fome” para comer e a senhora mandava ele ficar quieto e nos liberava à vontade! Delícia! Me sentia acolhida, amada pela senhora! Era tão bom seu cheiro, seu jeito, sua fala (quando falava!).

A senhora tratava minha mãe tão bem, tão atenciosamente, com carinho com ela e com o meu pai, seu filho mais velho. Como ele era parecido com a senhora! Lindo! Parecidíssimos, tanto física quanto emocionalmente (calados, observadores, tristes, distantes e presentes). Eu ficava vendo seu jeito de falar com ele e te amava muito pelo seu carinho e cuidado. Tivemos momentos muito difíceis e a senhora e a tia Iracema, minha amada, sua segunda filha, nos acolheram e ajudaram muito! Apoiaram meus pais e eu lhes sou muito grata!

Meu pai saía da sua casa, quando vocês moravam em Minas ainda, aos 14 anos sozinho, para trabalhar em São Paulo e nunca mais teve dinheiro para voltar.

Quando ele ficou cego e não podia mais trabalhar, me contou que um dia, aos dez anos de idade, a senhora pediu a ele para ele ir comprar macarrão para fazer de almoço, pois seus sogros iam chegar para almoçar e não tinha nada para fazer de almoço e ele, com vergonha de pedir ao dono da venda mais um fiado, entrou numa capelinha que tinha na estrada e roubou de uma santinha um dinheirinho para comprar o macarrão e prometeu a Santa que um dia que tivesse o dinheiro voltaria para pagar e ele nunca conseguiu.

Quando ele me contou isso, imediatamente programei nossa viagem para lá e ele fez a devolução do finge para a santa. Vê aí na foto do alto? É a senhora, mas nenhum de vocês soube disso, né vó? Seu filho, meu pai, era um homem doce e honrado como a senhora. Só não lhes viu por tantos anos porque tinha vergonha de não ter conseguido prosperidade, sucesso. Não sei quanto tempo vocês ficaram sem se ver, nem em que época se reencontram, mas para mim foi maravilhoso!

Lembro da sua fé, dos seus ensinamentos religiosos. Sempre te admirei por isso e agradeço suas orações pelo milagre da minha recuperação e por eu não ter tido a perna direita amputada aos dois meses de idade quando tive tétano. A senhora e a mãe da minha mãe, vó Dora, mesmo com religiões diferentes, tinham uma fé inabalável é Deus ouviu às suas preces e eu fui salva!

GRATIDÃO ETERNA! Só não gostei quando tive que, aos 7 anos, sendo a mais alta das crianças da minha idade, ter que me vestir de anjo e carregar vela do meu tamanho para pagar promessa para São Judas Tadeu lá na sua igreja, no dia dele!😂😂😂😂

Vó, eu gostaria tanto de saber sobre meus antepassados! Tenho muito orgulho de ser descendente da senhora, dos indígenas que te antecederam! Não tem nem por onde começar! Se for possível, me dê uma LUZ!!!

Vocês nunca contavam nada e a família foi se dissipando, acabando, separando... não tivemos mais contato um com outro desde que a senhora se foi há 48 anos. Meu avô ficou mais um pouco, mas não era de agregar, acolher como a senhora. Me sinto perdida, vovó! Do lado da vó Dora é a mesma coisa! Ninguém se junta, ninguém fala nada! É tão triste isso! Espero conseguir uma brecha para desvendar e encontrar os nossos. Mas, quando busco, e faço isso desde pequena, me chamam de “enxerida, xereta, bisbilhoteira “ e dizem “não se mexe no que está quieto”! Eu não concordo. Acho tão bom saber da nossa ancestralidade!

Ontem tive um reencontro com a senhora que foi muito acalentador! Me fortaleceu! Que a senhora fique comigo, minha luz, mas eu aqui e a senhora onde está. Não posso querer estar com a senhora ainda. Esse desejo de morte, de autodestruição que carrego tem que acabar! Não é meu! Eu não tenho motivo mais para sentir isso! Preciso ficar aqui mais um pouco. Sei agora que a senhora e seu povo foram grandes guerreiros, sofreram dores, perdas e fora muito desrespeitados, humilhados e por incontáveis e terríveis anos viveram na opressão, na exclusão e prisão!

Percebi ontem que talvez eu tenha estado a serviço de vocês até aqui para conseguir fazer com que sejam vistos e incluídos. Não precisa mais, vó!

Eu VEJO VOCÊS!!! Eu os inclui no meu coração, na minha alma, no nosso sistema familiar!

Como disse ontem à amada Mestra Olinda Guedes: NENHUM OUTRO BEBÊ, NENHUMA OUTRA CRIANÇA PRECISA SOFRER! Está tudo no seu devido lugar!

Vamos ficar em paz!

A senhora aí com Jesus e eu aqui com a minha vida e o orgulho de ser sua neta, fazendo o melhor com o que a senhora e nossos amados nos deixaram! GRATIDÃO VOZINHA!

GRATIDÃO MEU POVO INDÍGENA!

EU AMO VOCÊS INFINITA E ETERNAMENTE!

 GRATIDÃO DEUS!

Saber Sistêmico - Comunidade da Constelação Familiar Sistêmica
Ler conteúdo completo
Indicados para você