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O primeiro dia de aula de Marianne Franke-Gricksch

O primeiro dia de aula de Marianne Franke-Gricksch

Em breve estarei publicando, neste blog, um texto intitulado “Por que todo mundo deve ler o livro O que traz quem levamos para a escola?”, de autoria de Olinda Guedes. Quem já leu a obra entenderá a escolha desse título e quem se propor a lê-la, a partir de agora, também. A produção desse texto com o qual me comprometo, ainda está em processo e o faço a partir de uma releitura cuidadosa e bastante reflexiva sobre o conteúdo e aprendizagens propostas na e pela obra.

Mas, aqui, pretendo refletir apenas sobre um dos preciosos textos presentes nesse livro de 192 páginas, cuja capa é ilustrada com uma sacolinha xadrez e outros materiais típicos do universo escolar, tais como régua, tesoura, cadernos e lápis de cor.

Trata-se do relato escrito por Marianne Franke-Gricksch - pedagoga alemã e pioneira na aplicação educacional escolar da abordagem sistêmica segundo Bert Hellinger -, sobre o seu primeiro dia de aula e que está transcrito em uma das seções introdutórias do livro intitulada “Meu Primeiro dia na escola”. Assim como Marianne, outras pessoas próximas e alguns alunos de Olinda contribuíram com a obra a partir de interessantes e emocionantes relatos. Esses textos estão harmoniosamente inseridos entre os escritos da autora, ora ilustrando-os, ora sendo ilustrados por eles. O conjunto textual emprega coesão e coerência à obra, constituindo a sua singularidade, aspecto que pretendo detalhar em texto futuro.

O texto produzido por Marianne Franke-Gricksch está escrito em língua alemã e assim disponibilizado no livro, ao lado de sua tradução em língua portuguesa. Constitui-se em um tocante relato sobre os sentimentos e pensamentos de uma criança quando de sua ida, pela primeira vez, à escola. Também retrata, de forma significativa, o contexto sócio-histórico-cultural no qual se inseria a escola na Europa, especificamente, na Alemanha, em finais da década de 40, aspecto que, aqui, pretendo destacar.

Marianne relata diversos fatos reavivados em sua lembrança sobre aquele “lindo dia de outono” de 1948. Entre eles, está a descrição das roupas que usara em seu primeiro dia de aula: uma saia plissada, em azul-escuro, feita pela mãe a partir de “um tecido tingido de um vestido velho dela [da mãe]” (p. 14), e “uma blusa branca, com gola e dois lacinhos que na ponta tinham um pequeníssimo pedaço de tecido vermelho” (p. 14). Recorda de ter usado, também, sandálias azul-escuro e da decepção que isso lhe causou, uma vez que seu desejo era poder usar as vermelhas que não pode comprar, pois o seu número estava esgotado.

Descreve os seus materiais escolares, a lousa de xisto que os alunos tinham “que apertar muito para escrever” (p. 14) e que, por sua vez, possuía uma moldura de madeira com “um buraco onde se prendia uma pequena esponja [que deveria ser usada úmida] para limpar [o quadro]” (p. 16); a “caneta-manteiga” cujo nome fora dado porque a massa para escrever era parecida com manteiga; a mochila de couro marrom em cujo interior estava a lousa; e a “caixinha de madeira para os lápis” (p. 16).

Relata, ainda, sobre a sala de aula que ficava na “escola velha” já que a “escola nova” era destinada “às turmas mais velhas” (p. 17). Em sua sala havia carteiras que tinham tampas que podiam ser abertas e eram articuladas a um banco que servia a quatro alunos, enquanto que as carteiras da “escola nova” eram também mais novas e serviam para cada dois alunos.

A descrição feita pela pedagoga alemã sobre as roupas e materiais escolares que usava, bem como sobre as carteiras de sua sala, permite que o leitor construa uma imagem sobre alguns aspectos da escola de finais da década de 40, na Alemanha. Inevitavelmente, possibilita que os comparemos com o cenário atual típico das escolas, especialmente das brasileiras, que são as que mais conhecemos. Atualmente, é comum que as escolas exijam, como uniforme escolar, o uso de calça e camiseta tanto por meninos quanto por meninas. As carteiras, com raras exceções ao modelo apresentado por Marianne, também são diferentes e se caracterizam pela unicidade e individualidade. Os materiais escolares são, provavelmente, os que mais se modificaram se comparados aos de finais da década de 40. Os estojos de madeira, praticamente, inexistem e hoje não se escreve mais em lousa de xisto, mas em cadernos de modelos e formatos para todos os gostos e em alguns lugares e séries escolares escreve-se, exclusivamente, em computadores.

O contexto escolar de finais da década de 40, na Alemanha, é mais vivamente construído e compreendido a partir do relato de acontecimentos familiares, sociais e locais vivenciados pela narradora. Marianne informa que vivia em uma aldeia com a mãe e com os irmãos e que o pai, que ainda não conhecia, “estava na Rússia como prisioneiro de guerra” (p. 13). Informa, também, que em sua turma “havia muitas crianças cujos pais morreram na guerra ou estavam desaparecidos” (p. 18) e que “só os soldados americanos tinham” acesso ao chocolate. Esses fatos permitem que nos transportemos para o tempo e espaço da Alemanha após a Segunda Guerra Mundial, no qual a lembrança da guerra é ainda muito presente e que reflitamos sobre os significados da infância e da escola para essas crianças que foram, precocemente, apartadas de seus pais por causa da guerra. Possibilitam, ainda, que façamos uma relação entre a experiência da ausência paterna (ou materna) vividas por crianças no passado e na atualidade – e que não precisam, necessariamente, ser em contexto de guerra – tanto no Brasil como no mundo.

Marianne apresenta o seu texto com objetividade e sem sentimentalismos, mas nós, leitores - usufruindo do direito de construirmos conjuntamente os sentidos do texto - , do lado de cá, o fazemos por ela. Quem conhece o que é viver com a presença ou a ausência do pai – ou seja, todos nós –  pode imaginar o que se passa no coração de uma criança que reza, todas as  noites, com a mãe e os irmãos, pelo retorno do pai: “Toda noite, meus dois irmãos, minha mãe e eu rezávamos para que papai voltasse logo para casa” (p. 13). A imagem que construímos do rosto das crianças a que se refere Marianne e que perderam os pais na guerra, também nos toca no momento da leitura. A mim, pelo menos, o desejo é de abraçá-las tentando, em vão, sei disso, afagar e amenizar uma dor que não se ameniza apenas pelo meu desejo. Essas experiências têm grande impacto sobre a alma da criança, especialmente, diante da proximidade das duras sequelas deixadas pela guerra.

Merece destaque como um elemento simbólico representativo da aliança entre escola e família, a entrega de um Schultüte – “uma espécie de cartucho em formado de cone, recheado de doces e outras coisas mais” (p. 15) – para as crianças em seu primeiro dia de aula, na Alemanha. Trata-se de costume muito comum nesse país e o modo como expressa Marianne a esse respeito, demonstra a naturalização dessa prática: “Claro, eu também ganhei uma ‘Schultüte’” (p. 15). Desconheço uma prática semelhante a essa, que abranja a coletividade das escolas, no Brasil. Talvez ocorram algumas semelhantes a essa apenas em algumas famílias.

Vários outros elementos singulares podem ser destacados a partir do texto de Marianne, tais como a sua já intimidade com a escola, tanto pelo fato da mãe ser professora quanto pelo fato de demonstrar que já a frequentava antes de sua iniciação oficial na escola: “Eu teria preferido ficar na parte nova da escola, onde minha mãe trabalhava” (p. 17) e “Na escola velha também ficava o jardim de infância com sua casinha dos bombeiros. Essa parte da casa eu já conhecia” (p. 17).

Assinalo também o pouco destaque dado à relação com a sua professora e para a qual parecia ser indiferente, tal como relata na passagem: “Alguns adultos da aldeia me perguntaram se eu gostava da minha professora, mas isto não era tão importante para mim e assim eu dizia simplesmente ‘sim’” (p. 19). Essa relação com a professora pode ser justificada, talvez, porque o que mais lhe importava era responder à pergunta “Como a minha professora vai nos ensinar a ler, escrever e calcular?” (p. 20), conforme declara ter feito “por semanas e meses” (p. 20). Além disso, embora a narradora não o mencione, provavelmente o desejo pelo retorno do pai preenchia o seu coração infantil e tinha muito mais importância do que o que lhe representava a professora.

Toda leitura e releitura do texto de Marianne permite a descoberta de novos pontos e aspectos sobre a sua experiência escolar e que merecem a nossa atenção. Poderíamos nos alongar mais um pouco nesse debate. Porém, julgo que cumpri o propósito a que me dispus nesse texto. Cabe frisar que o relato de Marianne Franke-Gricksch constitui-se em um interessante retrato histórico-cultural do contexto escolar da Alemanha, após a Segunda Guerra Mundial. E para finalizar nossa conversa, proponho a reflexão sobre algumas questões que possam surgir a partir da temática aqui desenvolvida e que não se esgotam a partir da leitura do texto de Marianne: em termos estruturais e afetivos, como era a escola antigamente e como é agora?; que tipos de vínculos existem entre a escola e a sociedade, na atualidade?; de que forma acontecimentos históricos e sociais interferem na escola?; de que forma o professor pode contribuir para que os desafios vivenciados por seus alunos possam ser melhor compreendidos?; como o professor pode atuar para possibilitar o fortalecimento dos alunos em contextos marcados por tragédias familiares e sociais?; qual é o lugar da família no coração do professor e do professor no coração da família?

Referências:

GUEDES, Olinda. O que traz quem levamos para a Escola? Pedagogia Sistêmica. Curitiba: Appris, 2012.

 

Saber Sistêmico - Comunidade da Constelação Familiar Sistêmica
Denize Terezinha Teis
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Sou Denize Terezinha Teis. Filha de Claudino e Carmen. Esposa de Geziel e mamãe do Gustavo e da Gabriela. Além do imenso amor por maternar, também amo ser professora!

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